artigo recomendado

Bolognesi, B., Ribeiro, E., & Codato, A.. (2023). A New Ideological Classification of Brazilian Political Parties. Dados, 66(2), e20210164. Just as democratic politics changes, so does the perception about the parties out of which it is composed. This paper’s main purpose is to provide a new and updated ideological classification of Brazilian political parties. To do so, we applied a survey to political scientists in 2018, asking them to position each party on a left-right continuum and, additionally, to indicate their major goal: to pursue votes, government offices, or policy issues. Our findings indicate a centrifugal force acting upon the party system, pushing most parties to the right. Furthermore, we show a prevalence of patronage and clientelistic parties, which emphasize votes and offices rather than policy. keywords: political parties; political ideology; survey; party models; elections

8 de março de 2010

política ditatorial: programa de curso na ufpr (2010/1)

[Sem título, 1970. 
Santiago, Chile. 
Geraldo Guimarães.
Pirelli/MASP]

Apesar do nome formal da disciplina [HC166: Políticas governamentais comparadas], o objetivo do curso é examinar a história política recente do Brasil, ressaltando, no contexto do regime ditatorial implantado após 1964, o processo de reestruturação do aparelho do Estado e a reconfiguração da cena política. Considerando as profundas mudanças operadas na estrutura econômica e nas relações de força entre as diferentes classes e grupos (políticos e ideológicos), o curso terá também como alvo a dinâmica social, enfatizando as sucessivas crises de uma dada estrutura de poder até seu desaparecimento negociado, bem como as dificuldades para a constituição de uma nova ordem política democrática de 1985 em diante.

O curso está organizado com base em aulas expositivas, seminários e comentários de textos. Esses seminários serão apresentados por dois alunos e serão destacados mais dois alunos como debatedores. Todos os demais devem enviar, ANTES DO SEMINÁRIO, questões e comentários sobre os textos indicados no programa por e-mail para a lista de discussão do curso (polcomparada@googlegroups.com). Todos os dois apresentadores e os dois debatedores deverão entregar após o seminário um relatório sobre a atividade. Ao final do curso o estudante deverá elaborar um ensaio sobre tema livre. Para a avaliação será levada em conta a participação efetiva em sala, os comentários e um trabalho final a respeito de um dos itens do programa, a ser discutido com o professor.

OBS.: A (imensa) bibliografia complementar será referida em aula, a cada sessão

HC 166: políticas governamentais comparadas  
[clique aqui para baixar o programa em pdf - versão final] 
UFPR Ed. D. Pedro II sala 600

QUINTAS-FEIRAS, 13h30min - 17h30min 
polcomparada@googlegroups.com 

Programa de curso e cronograma
Aula/data
Referências

Aula 1. 11 mar. Apresentação do curso: análises clássicas da política ditatorial no Brasil
  • ZAVERUCHA, Jorge e TEIXEIRA, Helder. A literatura sobre relações civis-militares no Brasil (1964-2002): uma síntese. BIB – Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, 55, 1º semestre de 2003, pp. 59-72.
  • STEPAN, Alfred. Os militares na política. Rio de Janeiro: Artenova, 1975.
  • QUARTIM DE MORAES, João. Alfred Stepan e o mito do poder moderador. In _____. Liberalismo e ditadura no Cone Sul. Campinas: UNICAMP, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2001. pp. 57-109.
referências gerais:
  1. MARTINS, Luciano. A dinâmica e o legado de 64. Folha de S. Paulo, 31 mar. 1994, p. 1-3.
  2. Entrevista de João Goulart à TV. Montevidéu, set. 1961 (vídeo).
  3. Cronologia dos eventos políticos: 1961-1985. Banco de Dados Folha. 40 anos do Golpe (1964-2004).
  4. A trajetória política de João Goulart. CPDOC/FGV.
I UNIDADE: O GOLPE, OS PRIMEIROS ANOS DE CONSTITUIÇÃO DO REGIME

Aula 2. 18 mar. O golpe de 1964 em perspectiva: o que já sabemos (e o que ainda falta saber)
  • FICO, Carlos. Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Rev. Bras. Hist., São Paulo, v. 24, n. 47, pp. 29-60, 2004. (comentário 1)
  • GORENDER, Jacob. Era o golpe de 64 era inevitável? In TOLEDO, Caio Navarro de (org.). 1964: visões críticas do golpe. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997. pp. 109-116. (seminário 1)
  • MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O anticomunismo militar. In MARTINS FILHO, João Roberto (org.). O golpe de 1964 e o regime militar: novas perspectivas. São Carlos: EDUFSCAR, 2006, pp. 9-26. (seminário 2)
  • QUARTIM DE MORAES, João. As causas políticas da vitória dos golpistas. Vermelho. 5 abr. 2004
  • SANTOS, Wanderley Guilherme dos. O cálculo do conflito: estabilidade e crise na política brasileira. Belo Horizonte, Rio de Janeiro: Ed. UFMG, Iuperj, 2003.
documentos históricos:
  1. João Goulart. Comício da Central do Brasil. 13 mar. 1964 (áudio).
  2. 30 anos depois. Editorial do jornal O Estado de S. Paulo, 31 mar. 1994.
  3. Basta! Editorial do jornal Correio da Manhã, 31 mar. 1964.
  4. Fora! Editorial do jornal Correio da Manhã, 1 abr. 1964.
Aula 3. 25 mar. O golpe de 1964 e o regime de 1968: "ou a Revolução continua ou a Revolução se desagrega"
documentos históricos:
  1. áudio da sessão do Conselho de Segurança Nacional que definiu os termos do AI-5 (13 dez. 1968)
  2. discurso de Márcio Moreira Alves (MDB-GB) na Câmara dos Deputados (3 set. 1968) (reconstituição histórica)
  3. Passeata dos Cem Mil. Rio de Janeiro (26 jun. 1968). 
  4. Passeata dos Cem Mil. Depoimento. Ferreira Gullar.
  5. Arnaldo Jabor. A Opinião Pública. 1967 (filme).
  6. Castello Branco. Ato de assinatura do AI-2 (27 out. 1965)
  7. Entrevista com Carlos Lacerda sobre a Frente Ampla (1967).
II UNIDADE: AS TRANSFORMAÇÕES DO APARELHO DO ESTADO

Aula 4. 1 abr. A natureza militar do regime brasileiro: autoritarismo burocrático ou ditadura militar?
  • MARTINS Filho, João Roberto. O palácio e a caserna: a dinâmica militar das crises políticas na ditadura (1964-1969). São Carlos (SP): Editora da UFSCar, 1995, caps. 3, 4 e 5, pp. 69-155. (comentário 3)
  • FICO, Carlos. “Prezada Censura”: cartas ao regime militar. Topoi, Rio de Janeiro, v. 5, pp. 251-286, 2002. (seminário 4)
  • CASTRO, Celso. Comemorando a 'revolução' de 1964: a memória histórica dos militares brasileiros. In FICO, Carlos et al. Ditadura e democracia na América Latina: balanço histórico e perspectivas. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008, pp. 116-142. (seminário 5)
  • CASTRO, Celso. Interviewing the Brazilian military: reflections on a research experience. XI International Oral History Conference. Istanbul, Turkey: International Oral History Association University, 2000. v.1. pp.110-115.
  • OLIVEIRA, Eliézer Rizzo. Conflitos militares e decisões políticas sob a presidência do General Geisel (1974-1979). In ROUQUIÉ, Alain et al. (coords.). Os partidos militares no Brasil. Rio de Janeiro: Record, s.d., pp. 114-153. (seminário 6)
documentos históricos:
  1. Cálice. Chico Buarque e Gilberto Gil. 1973. Clip com imagens de época. Autor: Aramuni (vídeo).
  2. Nas páginas do Estadão, a luta contra a censura. Dezenas de páginas do jornal que foram vetadas pelos censores durante o regime militar, e nunca vieram a público.
  3. Posse do General Emílio Garrastazu Médici na presidência da República em 30 out. 1969. Arquivo Nacional (vídeo).
  4. Brasil: um país que vai pra frente. Vídeo de propaganda da ditadura militar (início dos anos 1970).
  5. Pra Frente Brasil. Os Incríveis. 1970 (letra e música).
  6. Eu te amo meu Brasil. Dom e Ravel. Os Incríveis. 1970 (letra e música).
  7. "Povo desenvolvido é povo limpo". Campanha da ditadura militar sobre limpeza pública com "Sugismundo". Criação de Ruy Perotti Barbosa. 1971-1972 (vídeo).
  8. "Hoje é um Novo Dia de um Novo Tempo". Terceiro filme da série de quatro que a TV Globo preparou em 1976 para a campanha de lançamento do jingle, de autoria de Nelson Motta, Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle.
    Aula 5. 8 abr. A natureza burocrática da ditadura brasileira: racionalidade autoritária ou politização da gestão?
    • MARTINS, Luciano. Estado capitalista e burocracia no Brasil pós-64. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, Cap. II: O Estado em expansão, pp. 41-82. (seminário 7)
    • DINIZ, Eli e BOSCHI, Renato Raul. Burocracia, clientelismo e oligopólio: o Conselho Interministerial de Preços. In LIMA Jr., Olavo Brasil de; e ABRANCHES, Sérgio Henrique (coords.). As origens da crise: Estado autoritário e planejamento no Brasil. São Paulo: Vértice, 1987, pp. 57-101.
    • KLEIN, Lúcia. Inside the Corridors of Power. Industrial Policy Implementation in Brazil, 1974/1979. Ph.D. Dissertation (Political Science). Essex: University of Essex, 1985. 
    • SANTOS, Maria Helena de Castro. Fragmentação e informalismo na tomada de decisão: o caso da política de álcool combustível no Brasil autoritário pós-64. Dados, Rio de Janeiro, vol. 30, n. 1, pp. 73-94, 1987.
    documentos históricos:
    1. Entrevista de Delfim Netto à TV TUPI. 1968 (vídeo).
    2. Entrevista de Delfim Netto no CTA em São José dos Campos (SP). 1969 (vídeo).
    3. O Brasil por Delfim. TV Câmara. 2001. (vídeo 1) (vídeo 2) (vídeo 3) (vídeo 4).
    4. Entrevista do General Leônidas Pires Gonçalves. Min. do Exército do governo Sarney (1985-1990). (vídeo. TV Globo). 
    5. Cidadão Boilesen (Brasil/2009, 92 min.) - Documentário. Direção de Chaim Litewski. (vídeo/trailer).
      Aula 6. 15 abr. Estado, política e planejamento econômico: a razão tecnocrática em questão
      • LAFER, Celso. O sistema político brasileiro: estrutura e processo. São Paulo: Perspectiva, 1975. pp. 71-128. (seminário 8)
      • MONTEIRO, Jorge Vianna e CUNHA, Luiz Roberto Azevedo. A organização do planejamento econômico: o caso brasileiro. Pesquisa e Planejamento Econômico, Rio de Janeiro, v. 3, n. 4, pp. 1045-1064, dez. 1973. 
      • CRUZ, Sebastião C. Velasco e. Interesses de classe e organização estatal: o caso do Consplan. Dados, Rio de Janeiro, v. 18, 1978. 
      • VIANNA, Maria Lúcia Teixeira Werneck. A administração do "milagre": o Conselho Monetário Nacional – 1964/1974. Petrópolis: Vozes, 1987.
      documentos históricos:
      1. CAMPOS, Roberto de Oliveira. A experiência brasileira de planejamento. In: SIMONSEN, Mário Henrique & CAMPOS, Roberto de Oliveira. A nova economia brasileira. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1974, pp. 47-78. (comentário 4)
      2. CASTRO, Celso; e D'ARAÚJO, Maria Celina (orgs.). Tempos modernos: João Paulo dos Reis Velloso, memórias do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2004. (texto parcialmente aqui)
        Aula 7. 22 abr. Estado, desenho institucional e processo decisório: a geografia dos interesses sociais
        • CARDOSO, Fernando Henrique. Autoritarismo e democratização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975, Caps. V, VI e VII. (comentário 5)
        • MARTINS, Carlos Estevam. Capitalismo de Estado e modelo político no Brasil. Rio de Janeiro, Graal, 1977, caps. 5, 6, 7 e 8. pp. 247-359. (seminário 9)
        • ANDRADE Régis Stephan de Castro e; JACCOUD, Luciana (orgs.). Estrutura e organização do Poder Executivo. Brasília: Centro de Documentação, Informação e Difusão Graciliano Ramos, ENAP, 1993, 2 vols.
        • CODATO, Adriano Nervo. Sistema estatal e política econômica no Brasil pós-64. São Paulo: Hucitec/ANPOCS/Ed. da UFPR, 1997.
        Aula 8. 29 abr. A política econômica e o papel das Forças Armada: definição, supervisão ou delegação?
        III UNIDADE: CRISE POLÍTICA E TRANSIÇÃO DE REGIME
         

        Aula 9. 6 maio Estratégias de descompressão política "lenta, segura e gradual": a interação entre o projeto militar, o processo político e as lutas sociais
        Aula 10. 13 maio A lógica militar da "democratização": a reconversão liberal da ditadura militar e as formas de manipulação do consenso
        • MARTINS, Luciano. A “liberalização” do regime autoritário no Brasil. In O’DONNELL, Guillermo; SCHMITTER, Philippe; e WHITEHEAD, Lawrence (orgs.). Transições do regime autoritário: América Latina. São Paulo: Vértice, 1988. pp. 108-139. (comentário 8)
        • SKIDMORE, Thomas. A lenta via brasileira para a democratização: 1974-1985. In STEPAN, Alfred (org.). Democratizando o Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, pp. 27-81. (seminário 15)
        • FLEISCHER, David. Manipulações casuísticas do sistema eleitoral durante o período militar, ou como usualmente o feitiço se voltava contra o feiticeiro. In Soares Gláucio; D’Araujo Maria Celina (orgs.). 21 anos de regime militar: balanços e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getulio Vargas, 1994, pp. 154-197. (seminário 16)
        • CODATO, Adriano. Uma história política da transição brasileira: da ditadura militar à democracia. Rev. Sociol. Polit., Curitiba, v. 25, pp. 83-106, 2005.
        documentos históricos:
        1. "Tanto Mar". Chico Buarque explica a história das duas versões da música (1978).
        2. Luiz Carlos Prestes. Roda Viva. Entrevista à TV Cultura. 1986 (parte 1).
        3. General Newton Cruz. cena do filme Céu Aberto de João Batista de Andrade (1985). 
        4. Entrevista General Newton Cruz sobre atentado do RioCentro (TV Globo. 2010).
        IV UNIDADE: A CONSTRUÇÃO INSTITUCIONAL DA DEMOCRACIA RESTRITA
         

        Aula 11. 20 maio Da ditadura militar à democracia liberal: a natureza e a direção da mudança política no Brasil
        Aula 12. 27 maio Sobre ditabrandas e democraduras: questões de nomenclatura, de ideologia e de teoria
        Aula 13. 10 jun. discussão dos temas dos papers finais [clique aqui para ver o modelo]

        Aula 14. 17 jun. entrega dos papers

        Para um melhor andamento das aulas expositivas, os alunos deverão ter lido, até o final da primeira unidade, um dos dois trabalhos básicos referidos abaixo; para a compreensão da história política recente:
        • ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964/1984). Petrópolis: Vozes, 1984.
        • SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castello a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
        .

        7 de março de 2010

        política e região: programa de curso na ufpr (2010/1)

        [Elemento Terra, 1989.
        Terra Roxa, SP.
        Delfim Martins.
        Pirelli/MASP]

        Abaixo o programa provisório do curso "Política e Região" às terças-feiras a noite na UFPR. O curso será dividido com Camila Tribess

        O objetivo do curso é, além do de superar o padrão escolar tradicional das disciplinas convencionais, contruir uma plataforma empírica e teórica para o estudo da dinâmica política em contextos subnacionais. Para tanto uma série diferente de atividades estão programadas.

        Pode-se dizer que o curso se organiza mais como um laboratório de aulas práticas do que uma disciplina regular. É importante notar que todos os estudantes deverão fazer o curso de SPSS oferecido durante a disciplina e que este é um pré-requisito para seguir neste curso.

        Na primeira parte, mais "teórica", haverá, além das aulas, seminários sobre as referências indicadas sobre política regional. Os seminários serão apresentados por dois alunos e serão destacados mais dois alunos como debatedores. Todos os demais devem enviar ANTES DO SEMINÁRIO questões e comentários sobre os textos por e-mail para a lista de discussão do curso [politica-e-regiao@googlegroups.com]. Todos os dois apresentadores e os dois debatedores deverão entregar após o seminário um relatório sobre a atividade.

        HC160 – POLÍTICA E REGIÃO [clique aqui para baixar o programa em pdf]
        UFPR Ed. D. Pedro II sala 606
        TERÇAS, 18h30min – 22h20min
        politica-e-regiao@googlegroups.com 

        Programa e cronograma 
        Aula/data
        Conteúdo

        APRESENTAÇÃO DO CURSO
        Aula 1.    9 março: A nova agenda de pesquisas do federalismo brasileiro
        SEMINÁRIOS/AULAS

        Aula 2.    16 março: Teses e teorias sobre o federalismo
        Aula 3.    23 março: Relações políticas entre executivos estaduais e bancadas federais
        Aula 4.    30 março: Processos decisórios e políticas de governo no contexto do federalismo
        Aula 5.    5, 6 e 7 abril
        • Curso SPSS das 14h às 18h (Bruno Bolognesi; UFSCAR)
        Aula 6.    13 abril: As elites políticas estaduais
        • DANTAS NETO, P. F. O carlismo para além de ACM: estratégias adaptativas de uma elite estadual. In SOUZA, Celina e DANTAS NETO, Paulo Fábio (orgs.). Governo, elites políticas e políticas públicas nos estados brasileiros. Rio de Janeiro: Revan, 2006. (comentário 4)
        • PERISSINOTO, Renato; COSTA, Luiz Domingos  e  TRIBESS, Camila. Origem social dos parlamentares paranaenses (1995-2006): alguns achados e algumas questões de pesquisa.  Sociologias [online]. 2009, n.22, pp. 280-313. (seminário 8)
        • ABU-EL-HAJ, J. Classe, poder e administração pública no Ceará. In: Parente, J. e Arruda, J. M. (orgs.). A Era Jereissati: modernidade e mito. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2002. 
        • CODATO, Adriano e GOUVÊA, Julio Cesar. Os atributos da elite político-administrativa: uma visão descritiva dos ocupantes dos empregos políticos no Paraná. In Perissinotto, Renato Monseff et al. (orgs.). Quem governa? Um estudo das elites políticas do Paraná. Curitiba: Editora UFPR, 2007, p. 49-67.
        Aula 7.    20 abril:
        Aula 8.    27 abril: A dinâmica do universo das elites políticas no contexto do federalismo
        ATIVIDADE PRÁTICA

        Aula 9.    4 maio
        • Apresentação dos bancos de dados sobre elites políticas regionais do NUSP (Renato Perissinotto). Análise dos dados das elites políticas do estado do Paraná (bancos das elites legislativas, administrativas e partidárias dos governos Lerner e Requião – do NUSP), com elaboração do problema empírico e teórico para o paper.
        Aula 10.    11 maio
        • Seleção de casos e divisão em grupos; frequências
        Aula 11.    18 maio
        • Comparações
        Aula 12.    25 maio
        • Crosstabs
        Aula 13.    1 junho
        • Gráficos
        A PRÁTICA DA PESQUISA

        Aula 14.    8 junho
        • Entrega de um resumo do que será o paper final, com a definição do problema empírico e das variáveis que serão utilizadas.
        Aula 15.    15 junho
        • Professores disponíveis para consultas e dúvidas quanto ao tema do paper (dados e/ou teorias).
        Aula 16.    22 junho
        • Entrega do paper final [clique aqui para ver o modelo].
        .

        6 de março de 2010

        análise sobre o novo centro administrativo de BH

        [Apartamentos Populares, 1952.
        German Lorca.
        Pirelli/MASP]

        FERNANDO SERAPIÃO
        Folha de S. Paulo, 4 mar. 2010

        Na gravura "O quarto do arquiteto", de Lina Bo Bardi, a arquiteta do Masp criou uma cena com armário entreaberto, mesa com cadeira e uma prateleira. Os personagens são maquetes de edifícios em diferentes estilos. Uma possível interpretação irônica da obra é que os arquitetos possuem soluções guardadas nas gavetas e as utilizam conforme a necessidade. Lembro-me disso diante da nova obra de Oscar Niemeyer.
        A Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves é composta por cinco edifícios, encomendados pelo governador Aécio Neves para reunir no extremo norte de Belo Horizonte mais de 40 órgãos estaduais. São três motivos alegados: induzir o desenvolvimento da região, diminuir despesas (principalmente aluguéis) e facilitar a gestão com a convivência entre funcionários. À primeira vista, principalmente se observado por dentro, tudo é uma maravilha: os móveis são novos, os equipamentos, sofisticados, e os espaços, confortáveis -como nas melhores empresas privadas.

        Contudo, do ponto de vista arquitetônico não há novidade. O prédio mais imponente abriga o gabinete do governador. É um edifício envidraçado de quatro andares que fica pendurado por estrutura externa. Com mais graça, tal solução foi utilizada por Niemeyer há 40 anos para uma editora na Itália.

        Louvando o novo prédio, o arquiteto e o calculista afirmam que ele é "o maior edifício suspenso do mundo". E daí? Eles se vangloriam como se o ineditismo técnico fosse de suma importância para o futuro da humanidade.

        Gastando energia em retórica desgastada, Niemeyer deixa de lado questões atuais como a eficiência energética -o complexo tem a maior área de vidros da América Latina. Fachadas envidraçadas voltadas para as faces ensolaradas, por exemplo, é um erro primário que exigirá mais energia do ar-condicionado. Os dois edifícios maiores são destinados às secretarias. Gêmeos, eles são gigantescos e curvos -e também foram retirados das "gavetas" do arquiteto. Eles têm proporção semelhante de um hotel em Petrópolis, desenhado em 1950.

        Por fim, além de um auditório pouco gracioso, o conjunto é completo por um centro de convivência, com restaurantes e lojas, que pretende substituir a rua -o espaço primordial de convivência urbana.

        E é justamente aí que está o maior problema. Se a arquitetura é requentada, a ideia de pensar em centro administrativo longínquo é tão nova quanto o bonde. Urbanisticamente, é um desastre. O governo deveria permanecer na região central, renovando edifícios subutilizados e incrementando a vida urbana. Ao deixar os edifícios da praça da Liberdade para atividades culturais, serão empobrecidos o uso e a diversidade local. Se na era da revolução das telecomunicações é estranho falar da necessidade do contato físico, para ajudar a desenvolver a periferia seria mais útil financiar transporte coletivo de massa. Claro, daria mais trabalho e menor visibilidade.

        Infelizmente, há 50 anos os políticos acreditam na mística de perpetuar-se com um postal de Niemeyer a fim de repetir a trajetória daquele que encomendou Pampulha e Brasília (raríssimos são os que apostam na capacidade arquitetônica de sua própria geração). Aécio Neves cometeu o mesmo erro: mirando o futuro, ele acertou o passado.

        FERNANDO SERAPIÃO é arquiteto e editor executivo da revista "Projeto Design".
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        3 de março de 2010

        Drogas, pobres e mortes

        [Menino e Pistola, Favela da Rocinha, 1999.
        André Cypriano. Pirelli/MASP]

        Gazeta do Povo, 3 mar. 2010, p. 2.

        Fábia Berlatto

        Por que tantas mortes violentas em Curitiba e na região metropolitana?

        Apesar de as atividades ligadas ao varejo de drogas terem mudado muito nas últimas duas décadas devido à associação com a cadeia internacional de produção e distribuição de produtos ilícitos, isso não quer dizer que haja, muito menos em Curitiba, o que comumente se chama de “crime organizado”, naquele modelo das máfias, dos exércitos, etc. que se baseiam na ideia de honra, de fidelidade. Muito pelo contrário: o fato de o comércio de drogas se caracterizar por um equilíbrio precário de poder é uma das explicações para o aumento de casos de mortes violentas em seu circuito.

        O acirramento dos conflitos pelos pontos de venda é constante e crescente, o que exige um processo dinâmico de substituição dos agentes participantes. O fato de os traficantes “locais” serem substituídos por traficantes “de fora” aumenta ainda mais a violência, já que esses últimos não têm qualquer laço comum, qualquer envolvimento prévio com os moradores das áreas onde atuam. Não esqueçamos que os policiais são também responsáveis por um grande número de mortes. 

        Esse processo dinâmico de busca pelo monopólio de certos territórios é um dos elementos fundamentais para entender, entre outras coisas, o processo de juvenilização dos agentes envolvidos no narcotráfico. Convém lembrar ainda que no estágio da vida que hoje chamamos de juventude, a necessidade de identificação e reconhecimento social é mais aguçada. Isso é importante para pensar, entre outras coisas, a preponderância da associação entre identidade viril e a prática de atos agressivos e violentos entre jovens de sexo masculino (de qualquer classe social, diga-se).  No entanto, nessa categoria etária são poucos aqueles que aderem ao tráfico.

        Quanto às mulheres, elas são historicamente muito menos violentas que os homens, e ainda que seja possível verificar um aumento da participação feminina nas redes do tráfico, elas geralmente ocupam posições que não exigem enfrentamento e, portanto, o uso da força armada.

        Mas o mais importante a ser dito é que o fato de o maior número de mortes relacionadas ao tráfico ocorrer em bairros periféricos, especialmente nas favelas, não quer dizer que a pobreza e os baixos índices de educação sejam determinantes da criminalidade e da violência. Sobre essa “interpretação”, deve-se dizer duas coisas: enquanto os grandes comerciantes, os intermediários e os financiadores do comércio de drogas podem permanecer invisíveis, a venda a varejo, a etapa mais visível e por isso mais arriscada das transações, se concentra predominantemente em favelas; por outro lado, o comércio que envolve o consumidor final, que quase nunca se realiza em “bocas”, mas em toda a cidade, inclusive em bairros “de alto padrão”, encontra-se protegido por uma série de mecanismos de tolerância social.

        A consequência disso é que a criminalização do tráfico de drogas recai preferencialmente sobre os pobres. Isso já foi insistentemente repetido e, mais importante, comprovado por pesquisas sociais. Se há um maior número de pretos, de pobres e de pretos pobres nas penitenciárias brasileiras, não é porque há neles ou nas favelas um condicionante, seja ele geográfico, genético, psicológico ou sociológico. Isso tem a ver com os mecanismos que o Estado adota no enfrentamento da criminalidade (e também com aqueles que decide não adotar).

        A sociabilidade violenta que caracteriza a relação entre os bandos de traficantes de drogas é distinta daquela que articula os moradores das favelas entre si. Esses últimos também sofrem, e sofrem ainda mais devido à proximidade territorial com os conflitos, o que os obriga a viver perenemente em situação de risco, a terem suas rotinas e sua sociabilidade normal alteradas pelo medo e pela insegurança.

        É importante enfatizar, por último, que o tráfico de drogas só é possível através de uma rede de interdependência formada por diversos agentes sociais, desde o consumidor até o Estado. Tanto o tráfico de drogas quanto o de armas, que viabiliza o primeiro, é inviável também sem a participação ativa de agentes estatais como policiais corruptos. Evidentemente, estes não são os únicos responsáveis pelo funcionamento e pela eficiência desse sistema.

        O tráfico de drogas não é um evento desconectado da dinâmica social, não é um fato isolado que acontece fora das nossas vistas, longe, nas “periferias”. O tráfico de drogas é um sistema que inclui e integra vários agentes sociais, que tem poderes distintos e status sociais diferentes.

        Esse sistema contém uma perversão intrínseca. Ele transfere toda a violência que lhe é inerente para as áreas pobres das cidades, garantindo, por sua vez, a tranquilidade da maioria dos consumidores endinheirados e dos chefões comerciais e financeiros desse esquema. Isso não só estigmatiza, mas deixa ainda mais vulneráveis aqueles jovens pobres que quando têm alguma oportunidade de trabalho, são para ocupações miseravelmente remuneradas e em condições extremamente desestimulantes.

        Fábia Berlatto é cientista social, membro do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da Universidade Federal do Paraná e mestre em Sociologia pela UFPR.
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        1 de março de 2010

        Jon Elster, Ulisses liberto: estudos sobre racionalidade, pré-compromisso e restrições

        [Maynard Owen Williams Self-Portrait
        National Geographic Image Collection]

        Quando menos é mais

        Resenha de: Jon Elster, Ulisses liberto: estudos sobre racionalidade, pré-compromisso e restrições. São Paulo: Editora Unesp, 2009.


        Adriano Codato

        Filósofo social teoriza sobre a imposição racional de restrições ao comportamento de indivíduos e sociedades

        Numa entrevista recente, Jon Elster resumiu assim sua teoria social: “eu encontrei minhas hipóteses nas obras dos filósofos moralistas franceses do século XVII e procurei verificá-las na psicologia e na economia do século XX”.

        Essa legenda tem justificado os cursos que passou a ministrar no Colégio da França desde que assumiu uma cadeira, na seção de Ciências filosóficas e sociológicas, intitulada por ele “Racionalidade e ciências sociais”, em junho de 2006. Elster já falou sobre ‘O desinteresse’, ‘A irracionalidade’ e ‘As decisões coletivas’. Atualmente, seu curso trata da Convenção federal americana de 1787, das escolhas políticas que ela exigiu e da invenção institucional que ela promoveu.

        Jon Elster “sucedeu” Pierre Bourdieu no Colégio da França (1982-2001), que por sua vez havia “sucedido” Claude Lévi-Strauss e a cadeira de Antropologia Social (1959-1982). Na instituição, não há a prática de ocupar a vaga de, já que se permite que sejam criadas outras cadeiras conforme a orientação e as pesquisas do novo titular. De toda maneira, nada mais diferente do que os interesses desse filósofo social norueguês (que foi orientado de Raymond Aron e escreveu uma tese sobre Marx na Sorbonne) em relação ao primeiro e ao segundo dessa linhagem que tem em Marcel Mauss e na cadeira de Sociologia (1931-1942) sua origem, por assim dizer.

        O livro de Elster, Ulisses liberto, publicado originalmente em 2000, a que agora os leitores brasileiros têm acesso, é uma espécie de continuação e de revisão do seu Ulisses e as sereias (1979). A questão de fundo é a mesma: compreender, a partir de um mapa das emoções humanas (razão, desrazão, paixão, interesse, altruísmo, conformismo, etc.), o que motiva a ação social. Tudo isso deve ser lido na chave do individualismo metodológico. São os indivíduos, suas crenças, seus sentimentos e seus propósitos que explicam o mundo social. E não grandes coletivos como “as classes” e seus interesses, “os militares” e sua organização, “o Estado” e suas funções, etc.

        A economia do comportamento social – a área de estudos de Jon Elster – pretende, na contramão da explicação estrutural, descobrir como pessoas e grupos definem prioridades, fazem escolhas, tomam decisões.

        Para destrinchar isso, é preciso investigar quais são os motores das ações individuais. Esse é um passo a mais na teorização da escolha racional: trata-se agora de completar o modelo original e saber como se formam as preferências; e não apenas como é possível simplesmente ajustar meios e fins. A mitologia do Homo Oeconomicus, tão abalada pelos comportamentos dos agentes que conduziram à última crise financeira mundial, dá lugar assim a uma espécie de psicologia social do ator.

        A história de Ulisses que inspira os dois livros é bem conhecida: ele ordenou a seus marinheiros que tapassem os ouvidos com cera e o acorrentassem ao mastro do seu navio para não ceder ao canto fatal das sereias. Essa decisão subjetiva implica, como se percebe, numa renúncia: nem sempre é melhor satisfazer imediatamente nossos impulsos. Essa é, ainda por cima, uma renúncia voluntária, uma escolha. Mas uma escolha que traz (ou pode trazer) benefícios tangíveis.

        A partir dessa imagem, Elster argumenta que às vezes é mais racional (no sentido de que é mais vantajoso em função dos objetivos a serem atingidos) ter menos que mais. Fumantes poderiam ter mais prazer com o tabaco se fumassem menos. Decidir entre poucas alternativas pode ser mais útil do que ter muitas à disposição. Renunciar ao uso do poder total pode ser mais sábio que poder decidir sobre tudo. É o caso dos governos que abdicaram do controle da moeda em favor de um Banco Central independente em nome dos riscos que o partidarismo e a politização excessiva da política econômica poderiam trazer. Saber cada vez mais sobre alguma coisa não é necessariamente bom. A manipulação genética é um exemplo. Por isso, argumenta Elster, impor a si mesmo restrições benéficas tem lá suas razões de ser.

        Há dois tipos de restrições benéficas. Principalmente por causa da utilização frequente da explicação funcional em ciências sociais (depois disso, logo, por causa disso) é preciso diferenciá-las.

        Há as restrições acidentais. Elas beneficiam o agente que as sofre, mas não são racionalmente escolhidas por ele por causa desses benefícios. Podem até ter sido escolhidas por ele, sim, mas por outro motivo; podem ter sido escolhidas por alguém; ou simplesmente não terem sido escolhidas: são um fato da vida com o qual temos de lidar.

        Há também outro tipo de impedimento. São as restrições essenciais. Elas são restrições que um agente impõe a si mesmo em nome de algum benefício esperado para si. O ato de criá-las pode ser chamado de auto-restrição. Esse é o assunto do livro.

        Com base nessa caracterização, Elster irá estabelecer um modelo bastante complexo (e excessivamente complicado) a partir de uma segunda diferenciação. Uma teoria geral dos constrangimentos da ação precisa separar logicamente motivos individuais, de um lado, e, de outro, dispositivos, mecanismos de compromisso com uma determinada coisa a fim de elucidar as várias formas de auto-restrição que um ator pode se fixar.

        O mesmo raciocínio pode ser usado para compreender e explicar os mecanismos de interação que permitem decisões coletivas. Nesse sentido, não se trata apenas de classificar normas de conduta, mas de definir os acordos tácitos ou explícitos que estão na base dos contratos e até mesmo da elaboração das Constituições.

        Esse é um ponto que interessa bastante os cientistas sociais, especialmente os cientistas políticos. Tomando como exemplo os processos de criação de novas Constituições políticas no Leste Europeu após o 1989, Elster procura pensar sobre as soluções dadas às complexas equações nacionais. A constitucionalização desses países deveria impedir, por exemplo, que os partidos comunistas voltassem rapidamente ao poder. Os próprios comunistas, que pretendiam preservar sua influência política e alguma capacidade de veto durante o período de transição para o capitalismo de mercado, gostariam de garantir imunidade total pelos crimes políticos cometidos durante os anos de vigência do “socialismo real”. Como escolher o melhor caminho para tanto? Que estratégias essas escolhas exigem? Do que se deve abrir mão para consegui-las?

        O estilo argumentativo de Elster é erudito e vistoso, mas nem sempre persuasivo. O recurso à linguagem conotativa torna a leitura mais arejada, mas tem um preço: algumas analogias e exemplos são um tanto forçados (e às vezes improcedentes). Idas e vindas entre registros muito distintos – filosofia clássica, literatura moderna, economia política, compêndios de mágicos, teoria social contemporânea, fatos banais do quotidiano, etc. – não é um recurso estilístico desprezível. Mas às vezes nos questionamos sobre a capacidade de persuasão sócio-lógica do autor e a potência de seus argumentos.

        Tratar de constrangimentos e restrições nesse nível de abstração conviria mais a uma psicologia do ator social independente do que a uma ciência do social. Afinal, como lembraram Levine, Sober e Wright, o fato de que se não houvesse pessoas não haveria sociedade, não implica que o indivíduo deve ser sempre a variável fundamental em explicações sociológicas.

        Adriano Codato é doutor em Ciência Política pela Unicamp, professor de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e editor da Revista de Sociologia e Política (www.scielo.br/rsocp).  
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        25 de fevereiro de 2010

        Dostoiévski em três novelas de juventude

        [Typ Euro Russia. 
        1900.
        Life]

        por Renato M. Perissinotto
        Novos Estudos CEBRAP,
        São Paulo, n. 85, dez. 2009.

        Este artigo analisa três novelas de juventude escritas por Fiódor Dostoiévski: Pobre gente, O duplo e Coração frágil .

        O texto tem dois objetivos fundamentais: primeiro, recusar a tese de que o autor russo, proverbial analista da alma humana, teria se despreocupado com os condicionantes sociais da ação dos seus personagens; em segundo lugar, pretende-se defender que a sociedade se faz presente nesses escritos por meio de uma "intuição sociológica" que Dostoiévski opera quando analisa os baixos funcionários da Rússia do século XIX.

        O texto está dividido em três partes: na primeira, descrevo a estrutura estatal da sociedade russa no século XIX; na segunda, apresento a descrição das condições de vida dos personagens e, por fim, analiso a forma pela qual o autor russo apresenta as interações sociais em que eles estão inseridos.

        para ler o texto integral,
        clique aqui
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        17 de fevereiro de 2010

        a mídia, os intelectuais e Pierre Bourdieu

        [Série A Várzea do Carmo, 1979-1980
        São Paulo, SP. Raul Garcez.
        Pirelli/MASP]

        Jacques Bouveresse
        do Collège de France.

        Cada dia que passa temos mais uma oportunidade de observar o enorme vazio criado pela morte de Pierre Bourdieu e de constatar o quanto se tornou arcaico o modelo do intelectual crítico, do qual provavelmente ele terá sido o último grande representante na França. A meu ver, o que está substituindo esse modelo foi muito bem descrito por Jean-Claude Milner, quando escreveu em seu panfleto Existe-t-il une vie intellectuelle en France ? (Existe uma vida intelectual na França?): “À primeira exortação a servir, sucedeu a segunda: ‘deixem de nos ofuscar com inúmeras provas de um saber excessivo ou de uma lucidez desagradável’, acrescentaram os notáveis. Não basta servir, é preciso também se mostrar humilde. Existiram retóricos para formar os doutrinários dessa humildade do Collège de France à imprensa. Daí o intelectual de hoje, pusilânime diante dos fortes, duro diante dos fracos, ambicioso sem projeto, ignorante sob os ouropéis do pedantismo, impreciso de estilo minucioso, inexato de estilo detalhista” 1 .

        Mesmo que, como acontece quase sempre nesse caso, provavelmente Milner tenha tendência a idealizar um pouco o período anterior, o que diz parece basicamente certo e corresponde à chegada ao poder de um tipo de intelectual de quem Bourdieu conhecia particularmente bem os costumes e o comportamento, e de quem ele pressentiu e descreveu o advento. Há pouco tempo, propus denominar “intelectual deferente” o tipo de intelectual que evita cuidadosamente dar a impressão de saber mais ou de ter mais consciência que outros e que não perde a oportunidade de manifestar seu respeito por todas as formas de poder, econômicas, políticas e midiáticas, pelas autoridades morais e religiosas, pelas crenças populares e até, se for o caso, pelas idéias feitas.

        A evolução, no período atual, constitui uma das questões sobre as quais sempre tive oportunidade de conversar com Bourdieu nos últimos anos. E é importante salientar que ele faz parte justamente daqueles que se opuseram até o fim à idéia de praticar a humildade sob a forma falaciosa que é recomendada atualmente, em outras palavras, à idéia de fazer concessões e de aceitar o acomodamento demandado em relação à competência e ao saber, com a esperança de conseguir contentar o maior número possível de pessoas. Ele jamais considerou que a tarefa do intelectual, mesmo e sobretudo a do sociólogo, pudesse ser, como se demanda cada vez mais, hoje, de se limitar a simplesmente retratar o social sob todos seus aspectos, inclusive os mais inaceitáveis, evitando o máximo possível julgá-lo e formular apreciações suscetíveis de chocar ou de ofender os atores.

        Para Bourdieu, a tarefa do sociólogo jamais consistiu, de acordo com uma expressão utilizada pelo orientador da tese de Elisabeth Teissier, em se ocupar essencialmente de “aspirar o social”, inclusive, eventualmente, no que ele pode ter de mais nauseabundo para alguém que conservou determinadas exigências morais e intelectuais, mas em adquirir um conhecimento real dos mecanismos que o governam, por meio de métodos que nada têm de natural e de imediato, um conhecimento que não só é desejável, mas indispensável, para se conseguir ter êxito em transformá-lo.

        Esse aspecto do problema é fundamental para se compreender alguns dos mais virulentos ataques enfrentados por Bourdieu nos últimos anos de sua vida. Ele se achava em uma posição de alguém que dá a impressão de defender uma posição cientificista e elitista contra o que se pode chamar a democracia e a igualdade em matéria de conhecimento e de crença. Este é o modelo do intelectual deferente adotado por Philippe Sollers quando, em um artigo intitulado “Pelo pluralismo midiático”, publicado no dia 18 de setembro de 1998 no Le Monde, caracteriza nossa época como “uma época de pluralidades, incertezas, caras sempre novas, surpresas, interseções, confrontos, singularidades irredutíveis”, e recomenda ao intelectual aceitar a partir de então, tratando em pé de igualdade todas as formas de contradição e de debate, qualquer que seja sua origem e seu grau de competência e seriedade, aqueles que expressam um ponto de vista diferente do seu.


        leia a continuação do artigo aqui

        (Trad.: Wanda Caldeira Brant)

        1 - Jean-Claude Milner, Existe-t-il une vie intellectuelle en France? Editions Verdier, Lagrasse, 2002, p. 24. 
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        14 de fevereiro de 2010

        memória histórica e ditadura militar

        [Flor de Gengibre, 1996.
        Havaí. Derli Barroso.
        Pirelli/MASP]

        Corpos fechados

        BORIS FAUSTO
        Folha de S. Paulo, 14 fev. 2010
        Mais!, p. 6

        Os temas dos direitos humanos e da preservação da memória de tempos terríveis, no nosso continente, concentram-se principalmente nos casos das ditaduras instauradas na Argentina, no Chile e no Brasil, nas décadas de 1960 e 1970 do século passado.
        Nesse quadro, o Brasil está bem atrás de seus vizinhos, não obstante as iniciativas dos governos Fernando Henrique e Lula, assim como das organizações da sociedade civil.
        O que mais avançou foram as justas indenizações às vítimas ou a suas famílias, embora concedidas, em vários casos, com uma largueza injustificável.

        Boas e más razões
        O discutido terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, encaminhado ao Congresso pelo presidente Lula nas vésperas do Natal de 2009, tratou da questão de cambulhada com uma série de outras.
        Isso gerou, por boas e más razões, críticas vindas de todos os lados.
        Diante delas, sob pressão militar, o Executivo alterou o texto que visa a promover a apuração e o esclarecimento das violações de direitos humanos, praticados sobretudo no contexto da repressão política, a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional, suprimindo a referência à "repressão política".
        A possibilidade de que torturadores venham a ser punidos é praticamente inexistente, e a preservação da memória dos tempos ditatoriais suscita muitas resistências.
        Por que isso acontece? Em primeiro lugar, porque em nosso país a ditadura não abrangeu amplos setores sociais, como na Argentina e no Chile.
        Evito aqui falar na infeliz contraposição entre "ditadura" e "ditablanda", pois, para vítimas de torturas e mortes, assim como para seus parentes, a expressão "ditablanda" chega a ser obscena.
        Mas, no plano histórico, a amplitude menor da repressão fez com que a luta pelos direitos das vítimas e pela preservação da memória se reduzisse a círculos restritos, não obstante sua intensa atuação.
        Fico num único exemplo comparativo. Não temos entre nós nada semelhante ao ocorrido na praça de Maio, em Buenos Aires, que, para muitos, é a "Plaza de las Madres", onde as mães e avós de desaparecidos manifestaram-se, semanalmente, ao longo dos anos.
        A praça, em frente à Casa Rosada, tornou-se, assim, um lugar de memória.

        Povo sem memória
        Por outro lado, é verdadeiro e ao mesmo tempo banal constatar que somos um povo sem memória. Isso ocorre não porque a "falta de memória" esteja inscrita no DNA dos brasileiros, mas por outras razões.
        O Brasil conheceu raras situações traumáticas em grande escala cujas consequências tenham atingido o conjunto da população. Nossas mazelas são de outro tipo: miséria, pobreza, desigualdade social.
        Também, a precariedade de nosso sistema educacional -um dos principais instrumentos de transmissão da memória histórica ao longo das gerações- contribui para esse quadro, em que o passado se assemelha a um buraco negro, com raros clarões de luz.
        Outro fator que pesa na dificuldade de preservação da memória dos anos de chumbo é a negativa de membros da cúpula das Forças Armadas em reconhecer o papel deletério desempenhado não só por militares como também por civis, na implantação do regime autoritário e em sua radicalização.
        Admitir essa culpa não significa negar a profunda instabilidade do governo Jango [1961-64] nem encarar os integrantes das organizações de luta armada como jovens românticos, que lutavam pela restauração da democracia.
        Mas a ação de rebeldes e a de agentes do Estado cujo dever é prender e julgar, e não torturar e matar, não se equivalem, como pretendem os que querem apagar a memória.
        Nem de longe trata-se de promover a execração das Forças Armadas, hoje circunscritas a sua missão constitucional, mas de encarar de frente um período nefasto.

        Reconciliação
        Um exemplo simbólico vem do Chile.
        Em 2006, a Marinha chilena recebeu membros do Agrupamento de Direitos Humanos Salvador Allende, em visita conjunta à ilha de Dawson, no extremo sul do país -local de prisão e tortura nos tempos de Pinochet- com o propósito de promover a reconciliação nacional e reconhecer as infâmias praticadas nos tristes tempos de um passado recente.
        No caso brasileiro, abrir arquivos ainda fechados, localizar corpos de desaparecidos, instituir museus e outros lugares de memória são iniciativas que não desonram as Forças Armadas e que, ao contrário, contribuem para o fortalecimento da democracia.
        Oxalá, as novas gerações de militares possam dar passos decisivos nesse sentido.

        BORIS FAUSTO (borisfausto@uol.com.br) é historiador e preside o Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Análise da Conjuntura Internacional), da USP. É autor de "A Revolução de 30" (Companhia das Letras).

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        9 de fevereiro de 2010

        agenda de pesquisa e campo profissional da Ciência Política

        [Miguel Chikaoka
        Algodoal, 1986.
        Pirelli/MASP]

        Escrevi o texto abaixo como introdução à aula inaugural do curso de graduação em Ciência Política da Faculdade Internacional de Curitiba – Facinter, 9 fev. 2010. O trabalho pode ser baixado e lido na íntegra. Ver o link no final do post. Trata-se, bem entendido, de um rascunho sobre a agenda de pesquisa e o campo profissional da Ciência Política brasileira hoje. Os juízos do texto estão baseados mais em impressões que em pesquisa. Todos os comentários são bem vindos. Peço encarecidamente para não citar este trabalho, pois ele se encontra ainda em elaboração. Decidi publicá-lo aqui para manter vivo o blog.


        Ninguém discordaria que a palavra “ciência” que enfeita a expressão “Ciência Política” soa um pouco excessiva.

        Como se pode tomar como objeto de conhecimento, e ainda por cima com rigor e método, isto é, cientificamente, a atividade política?

        Todas as definições sobre Ciência Política começam em geral do mesmo ponto: citando um autor importantíssimo tanto para a história da Sociologia quanto para a história do pensamento político contemporâneo – Max Weber. Essas definições destacam em geral duas conferências suas pronunciadas há quase cem anos atrás (em 1918) na Universidade de Munique: A ciência como vocação e A política como vocação (cf. Weber, 1994). Nelas, Weber propõe uma oposição radical entre o político de um lado, o cientista de outro. Isso só nos deixa um caminho: ou se é uma coisa, ou se é outra. Que dizer então dessa expressão, tão pomposa quanto suspeita: “cientista político”?

        Uma das muitas dificuldades ao juntá-las – “Ciência Política” – é que, de fato, o cientista e o político parecem pertencer a mundos completamente distintos. Talvez a única coisa em comum entre eles seja que suas atividades respectivas produzem duas imagens simétricas: uma positiva, outra negativa.

        Assim, “o” cientista – isto é, a figura ideal do cientista ideal – é aquele que se caracteriza ao mesmo tempo por uma virtude e por um defeito: (i) virtude: o trabalho do homem de ciência se faz no rigor da busca desinteressada da verdade; (ii) defeito: o cientista é o homem da especulação (especula com ideias) e por isso ele está sempre desligado dos problemas práticos e dos interesses práticos.

        Enrascada semelhante se dá com “o” político. Por oposição ao cientista, o político profissional tem uma virtude característica: (i) virtude: ele é o homem de ação – “aquele que faz” – e não aquele que só fala; e (ii) seu principal defeito? O político profissional é aquele que atua não de forma desinteressada (como o cientista), mas em benefício próprio. Eu poderia enumerar, para fundamentar essa proposição, todas as imagens que foram construídas sobre o “político maquiavélico”.

        Tendo essas dificuldades em mente, gostaria de propor aqui uma terceira via para encarar o cientista político. Trata-se de uma forma um tanto quanto diferente das duas anteriores (que impõe: ou se é político profissional, ou se é cientista puro). Penso que o cientista político deve ser tomado como (mais) um especialista das “novas profissões”.

        clique aqui para ler o documento [pdf]
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        31 de janeiro de 2010

        a república e o uso dos simbolos religiosos

        [Delhi, India. 1946
        Margaret Bourke-White
        Life]

        Entrevista da psicanalista Elisabeth Roudinesco à Folha de S. Paulo (31 jan. 2010) sobre o uso do véu fechado pelas mulheres na França. 

        FOLHA - Quando se fala da proibição ao véu fechado, trata-se de uma questão de direitos da mulher, de identidade francesa ou simplesmente de racismo?
        ELISABETH ROUDINESCO - Essa não é uma boa pergunta. Racismo não tem nada a ver com a questão. E o debate sobre identidade francesa, proposto pelo governo, não tem a ver com o trabalho da comissão sobre o véu integral.
        Tenha o cuidado de separar bem a tomada de posição do governo francês, extremamente reacionário, da comissão parlamentar que se reuniu para debater o assunto. Não se pode misturar tudo.
        A identidade francesa não se define. Fala-se então em "identidade nacional", mas a ideia de nação ruiu. Há uma oposição frontal de toda a esquerda francesa contra o debate sobre a identidade nacional. Assinei a petição contra essa iniciativa.
        Querem que os cidadãos respondam a um questionário do tipo "você canta a "Marselhesa'?", "você gosta de queijo francês?". É absolutamente ridículo, além de não funcionar. É como fazer um questionário sobre a identidade brasileira e, caso você não goste de dançar samba e nunca tenha nadado em Copacabana, seja considerado um mau brasileiro.
        Quase chegamos ao ponto de ter um governo tão ridículo quanto o [do premiê italiano] Berlusconi. A função presidencial deve representar valores intelectuais; é uma instituição.

        FOLHA - A sra. ainda não falou em feminismo.
        ROUDINESCO - Esses símbolos religiosos são símbolos de uma servidão feminina, mas se trata de uma servidão voluntária. Na França, quem os usa costumam ser mulheres convertidas. A lei não seria suficiente para lutar contra isso.

        FOLHA - As conclusões da comissão parlamentar são corretas?
        ROUDINESCO - Sou a favor de uma lei que reafirme a proibição de dissimular o rosto em serviços públicos. É uma questão de identificação. Não é preciso portar identidade, passaporte? Pois a foto precisa bater com o rosto de quem porta o documento. Não é necessário exigir isso na rua, mas sim em serviços públicos. Não se trata de proibir esse ou aquele item do vestuário, mas de evitar a dissimulação. É assim em todo o mundo -exceto, talvez, no Carnaval.

        FOLHA - Os muçulmanos na Europa são muitas vezes pobres e pouco integrados às sociedades dos países em que vivem. Abolir o véu é uma forma de a maioria (no caso, francesa) praticar a negação do outro?
        ROUDINESCO - Isso é ridículo. Falo como republicana, laica e de esquerda. Lembro que a França é um Estado laico, e que a tolerância religiosa é tanto maior quanto menos confessional for o Estado. E não há racismo contra muçulmanos. Não devemos confundir muçulmanos e imigrantes.

        FOLHA - Mas os muçulmanos na Europa, imigrantes ou não, frequentemente vivem em guetos. Não corremos o risco de fazer deles os judeus deste século?
        ROUDINESCO - De modo nenhum, pois não há guetos na França. E é claro que os muçulmanos não são os judeus deste século.

        FOLHA - O Reino Unido e outros países discutem a proibição ao véu. Acredita que se trata de uma tendência no mundo ocidental?
        ROUDINESCO - A França é laica, e o Reino Unido é mais "comunitário". Deixou se desenvolverem o véu, o lenço, usados de modo generalizado, incluindo crianças.
        Com efeito, eu diria que a Inglaterra cometeu o erro de não ser suficientemente laica, mas comunitarista demais. Isso acabou trazendo problemas, criando guetos. Não tendo lutado suficientemente pela laicidade, a Inglaterra agora se encontra confrontada pela questão do islamismo radical.
        E é preciso compreender que só os Estados laicos podem garantir um verdadeiro funcionamento democrático. Não se pode, portanto, deixar os religiosos imporem suas leis. Se o fizerem, será uma perda para a democracia. E só a democracia pode respeitar os cultos.
        É claro que, com a ascensão do islamismo radical, há tentativas de desestabilizar os Estados laicos; portanto não se trata de uma tendência do Ocidente -é um problema político.
        A vontade de dominação religiosa, em todas as suas formas, é sempre problemática para os Estados democráticos e laicos. Vocês têm esse problema no Brasil, com a ascensão dos evangélicos.
        Na Europa, temos um crescimento dos fundamentalismos religiosos de todos os tipos, notadamente o católico. É também um grande problema.

        FOLHA - Podemos esperar futuramente, como consequência, novas leis na França e em outros países?
        ROUDINESCO - Não, pois, no que concerne à Igreja Católica, é mais do que certo que ela tem de obedecer à Constituição do país. Não temos tantos evangélicos quanto vocês, mas temos o catolicismo.
        A Igreja Católica, extremamente reacionária, se opõe ao aborto, à liberdade dos homossexuais, assim como o islamismo radical também se opõe. É contra isso que os Estados laicos devem lutar.
        Na França, consegue-se separar a igreja do Estado, mas o perigo fundamentalista existe na Europa, em todos os cantos.
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        29 de janeiro de 2010

        no prelo: dicionário bourdieu


        [Salete Goldfinger.
        Pirelli/MASP]

        à paraître: Dictionnaire Bourdieu
        Dictionnaire Bourdieu
        Auteur : Chauviré, Chevalier
        Editeur : Ellipses Marketing
        Date de parution : avril 2010

        Texte de présentation du Dictionnaire (Merci à Stéphane Chevalier)

        « Il faut prendre les concepts au sérieux […]. » (Questions de Sociologie, 121)

        « Pour un tas de raisons - notamment parce que ceux qui auraient pu y être attentifs, comme les philosophes, n’ont pas voulu les voir, mais aussi et surtout parce qu’elles étaient occultées par ce qui était perçu comme la dimension politique, critique, voire polémique de mon travail -, les implications théoriques, les fondements anthropologiques - la théorie de la pratique, la philosophie de l’action, etc. - de mes recherches sont passées presque complètement inaperçues en France » (R, 134). Sans doute doit-on relativiser quelque peu la validité de ce jugement désabusé de Bourdieu à l’égard de la réception française de son œuvre théorique en rappelant qu’il est daté du séminaire de Chicago de l’hiver 1987. Durant la dernière décennie de sa vie, qui fut aussi la dernière de son siècle, l’auteur du Sens pratique a en effet activement œuvré à la reconnaissance de l’intérêt, pour la connaissance anthropologique, de l’idée de l’homme et de l’action humaine qui se dégageait de son travail sociologique. L’écho rencontré par des textes à dimension plus ouvertement théorique comme Réponses. Pour une anthropologie réflexive, Raisons pratiques. Sur la théorie de l’action ou Méditations pascaliennes a permis que la discussion de la philosophie de Bourdieu ne soit plus seulement l’apanage de quelques grands esprits étrangers (Habermas, Taylor, Searle, etc.). Il reste qu’il n’est pas illégitime d’estimer que le compte n’y est toujours pas et que la réception de la pensée de Bourdieu demeure encore, à bien des égards, à venir.

        Une telle affirmation peut sembler paradoxale pour qui a à l’esprit la place considérable occupée par Bourdieu dans la vie scientifique et intellectuelle depuis un demi-siècle. L’auteur du Sens pratique a non seulement profondément marqué les sciences sociales, transformant les pratiques de recherche (il suffit de songer, pour ne prendre que deux exemples particulièrement marquants, à la très large adoption des principes de « construction d’objet » ou d’« objectivation du sujet objectivant ») et suscitant un nombre impressionnant de recherches empiriques dans les domaines les plus variés, mais le paradigme qu’il a proposé, à partir des concepts d’habitus, de champ, de capital ou encore de stratégie, a rencontré un immense retentissement dans l’ensemble des champs de production culturelle. Pourtant, un moment dominante, en dépit, mais aussi en raison, des polémiques qui ont souvent contribué à en occulter l’intérêt réel et les intentions profondes, la pensée du sociologue a fini par être considérée à tort comme acquise. Avec le temps, son assimilation, sincère ou polémique, à une vulgate sommaire menace même de la faire définitivement disparaître derrière l’interprétation simpliste ou erronée de quelques concepts et de quelques titres de livres.

        A leur manière, les travaux de sociologie qui se réclament de Bourdieu ne sont pas épargnés par ce danger qui consiste, dans leurs cas, à transformer le corpus conceptuel du fondateur en un dispositif théorique dogmatique, purement académique, appliqué de manière routinière à tous les champs de la recherche et de la production de connaissance sur le monde social. Si le paradigme ne cesse, aujourd’hui encore, d’activer de nombreuses recherches, la qualité de ces dernières exige qu’elles ne se contentent pas de faire un usage mécanique de son opus operatum, mais qu’elles s’efforcent d’en ressaisir le modus operandi. Pour ce faire, il convient de ne pas se contenter d’une appréhension superficielle et fétichiste des principaux concepts que Bourdieu nous a légués, il faut s’efforcer de redonner vie à son activité conceptuelle, ou, pour le dire autrement, à sa pratique philosophique. L’auteur du Sens pratique ne réclame, en effet, pas seulement à être lu comme le sociologue considérable qu’il a été, mais comme un grand philosophe, l’un n’allant en réalité pas sans l’autre. Car, s’il entretenait une relation complexe avec la philosophie, s’il souhaitait que celle-ci, en tant qu’investigation conceptuelle, s’efface dans son œuvre, ce n’était certainement pas pour en consacrer la disparition, mais parce qu’elle devait n’être présente qu’à l’état pratique, à travers la construction de modes de pensée directement opérant dans le travail sociologique.

        Gestes théoriques précis, opérés dans un contexte théorique précis, pour répondre à des problèmes théoriques et empiriques précis, les concepts de la théorie de la pratique doivent, pour être réellement entendus et maîtrisés, être resitués en relation avec les mouvements de pensée en fonction desquels ils ont été construits. Le Dictionnaire Bourdieu ne peut évidement être qu’un modeste jalon de cette vaste entreprise d’éclaircissement conceptuel. Il ne revendique comme ambition, au regard du format qui est le sien, mais surtout de l’envergure de l’œuvre de Bourdieu, que de préparer le terrain, d’indiquer des directions essentielles à qui cherche à l’arpenter, c’est-à-dire à en comprendre la structure et à en mesurer l’ampleur. Privilégiant l’explicitation des intentions théoriques ayant conduit à l’invention de concepts (habitus, champ, illusio, etc.) ou au renouvellement de notions classiques issues de la tradition philosophique (le corps, la domination, le temps, etc.), il se veut, en effet, une voie d’accès privilégiée à la lecture éclairée de la sociologie de Bourdieu et à la découverte de la dimension majeure de la philosophie qu’elle engage.

        Au premier abord, un tel projet semble se heurter frontalement à toutes les mises en garde du sociologue contre les dangers d’une approche scolastique - c’est-à-dire, en l’espèce, à la fois théorétique et scolaire - des concepts, la plus célèbre de ces mises en garde étant sans doute celle qui accompagnait la caractérisation de l’habitus dans Le Sens pratique : « Il faudrait pouvoir éviter complètement de parler des concepts pour eux-mêmes, et de s’exposer ainsi à être à la fois schématique et formel » (SP, 89, note 2). En prenant le parti de considérer les concepts de Bourdieu en eux-mêmes et pour eux-mêmes, il est certain que nous nous exposons, d’une part, à trahir la richesse d’une pensée qui se voulait à la fois systémique, ses principales notions ne se définissant qu’à l’intérieur du système qu’elles constituent, et plastique, ses mêmes notions étant suffisamment évolutives pour prétendre s’adapter à l’investigation empirique ; d’autre part, à transformer des instruments de pensée construits pour et par la recherche en objets formels taillés pour la glose, pour le commentaire académique ou même mondain.

        Bourdieu n’a eu de cesse de rappeler que la posture de lecteur, comme celle d’exégète, instaure un rapport abstrait et décontextualisé au concept, dont elle encourage la réification et la fossilisation. Moins encore qu’une autre, sa pensée n’est conçue pour être disséquée en laboratoire ou exposée dans un musée. Contre la perspective de tels enfermements, le sociologue mettait en avant le caractère instrumental, perfectible et ouvert des concepts qu’il construisait. Il aimait, pour illustrer cette conception, reprendre la métaphore de Wittgenstein et affirmer qu’il s’efforçait de constituer une « boîte à outils théorique ». De même que c’est à l’usage, en pratique, que l’on découvre la qualité d’un outil, c’est à l’usage, en pratique, que l’on découvre la qualité d’un concept : « Il faut prendre les concepts au sérieux, les contrôler, et surtout les faire travailler sous contrôle, sous surveillance, dans la recherche. C’est ainsi qu’ils s’améliorent peu à peu, non par le contrôle logique qui les fossilise. » (QS, 121). Pour Bourdieu, les concepts ne sont donc pris au sérieux qu’en tant qu’ils participent d’une théorie appliquée, qu’ils sont inséparables d’activité scientifique d’expérimentation et d’observation qui permet d’en évaluer effectivement les effets d’intelligibilité.

        Le lecteur du Dictionnaire Bourdieu doit donc être averti des limites inhérentes à l’exposé théorique de concepts savants créés pour être mis au travail dans la pratique scientifique. Il n’en reste pas moins qu’il ne peut manquer d’y avoir du sens à parler des concepts en eux-mêmes, comme l’a d’ailleurs fait longuement Bourdieu lui-même dans les nombreux textes sur lesquels s’appuie, en prenant le parti de les citer abondamment, la rédaction de ce dictionnaire. En premier lieu parce que la réalité de la recherche scientifique l’exige, dans la mesure où, même si le contrôle de la dimension opératoire et fonctionnelle du concept échoit, en définitive, au travail d’expérimentation du chercheur, ce dernier ne peut compter sur cette pratique elle-même pour s’auto-interpréter et se transmettre ; ou, pour le dire autrement, parce qu’il faut bien établir la connaissance des outils et en enseigner le mode d’emploi avant de pouvoir en évaluer l’usage. En second, parce la science de l’homme que pratiquait Bourdieu a débouché sur des prises de positions philosophiques dont il est essentiel de donner à voir « les implications théoriques et les fondements anthropologiques ». A l’exemple de la notion d’habitus, la plupart des notions fondamentales de la pensée de Bourdieu présentées dans ce dictionnaire dérivent de ou sont en dialogue avec la tradition philosophique. En cherchant à construire une sociologie et une anthropologie capable de dépasser à la fois le structuralisme et la phénoménologie, Bourdieu a abordé et traité, avec une originalité qui n’est pas étrangère à son effort pour s’abstraire du « point de vue scolastique », la plupart des questions classiques de philosophie générale. Et, en définitive, les effets d’intelligibilité produits par le dense réseau de concepts qu’il a progressivement élaboré ont non seulement représenté des effets de rupture et de dépassement de problématiques antérieures, mais ont contribué à forger une philosophie qui, même si elle est présentée par son auteur comme une philosophie négative, ne peut manquer d’avoir sa propre identité conceptuelle. En dépit de sa défiance à l’égard du théoricisme, Bourdieu savait que le travail du concept appelle de lui-même un travail sur le concept et que celui-ci comporte son propre effet d’intelligibilité. De ce point de vue aussi, il est important de prendre les concepts au sérieux.
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