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28 de julho de 2012

O 'vampiro' (de Curitiba) mora ao lado

[Brassaï.
Paris]


Caetano W. Galindo

O maior escritor do Brasil mora a poucas quadras da minha casa. Soa confortável dizer isso. Mas vamos reelaborar, por justiça prosaica, até. Que seja. Eu é que moro a poucas quadras do maior escritor do Brasil. Ponha-me, eu, no meu lugar. Soa ainda mais confortável.

Nós, paranaenses, nós, curitibanos, estamos mais do que acostumados a nos sentirmos periféricos, extra-jogo, descontáveis. Com tudo, reconheçamos, que possa haver também de bom nessa posição, nessa situação.

Se é verdade que temos que fazer muito mais barulho para garantir qualquer atenção, é fato também que contamos por vezes com um fator "pasmo" que nos concede certas benesses.

Tipo "nossa, eles sabem fazer (... preencha a contento...) lá naqueles matões!" Mas aí soa mornamente vingançoso dizer com todos os foneminhas que, afinal, o maior escritor do Brasil mora aqui, a poucas quadras da minha casa. Assim como soa muito agradável lembrar que ele chegou aonde chegou, atingiu o que atingiu, construiu a obra que construiu e tudo mais, sem jamais:

1. jogar o jogo do capiau e se bandear de mala, cuia, ideologia, temática e modelos pro centro que o pudesse atrair.

2. jogar o jogo do capiau mala e celebrar alguma pretensa diferença ideológica, temática ou cuial que pudesse haver cá na quinta comarca.

O ufanismo e o deslumbre foram duas aves que jamais se empoleiraram no muro coberto de lascas de vidro ("cacos" são coisas aleatórias; nosso hematófago não faz nada que não de caso pensado) da casa do nosso escritor.

O homem cantou o rio da aldeia dele, o nosso rio (literalmente, né), lembrando que ele era mais sujo e mais seu que qualquer outro e, assim, mais universal. Ele, que como todo homem de juízo é fã da frase de Terêncio que diz que a nós, humanos, nada do humano pode (deve) ser jamais estranho, olhou em volta, viu o caos, a decadência, viu o amor pequenininho e adoentado, viu tesão tão mirradinho ou mais parrudo, viu a dor, a violência, o pasmo, o encanto e mesquinhez de sermos eu, você e ele nós.

O maior escritor do Brasil solta um livro por ano. O maior escritor do Brasil tem uma obra de uma consistência e de um nível de qualidade que só se renovam e se só refinam.

Se Truman Capote tinha direito de cutucar Norman Mailer e Gore Vidal dizendo que eles podiam ser grandes, mas jamais haviam inventado um gênero, o que dizer de um escritor que inventou uma literatura? Que esperou décadas até que todos (todos?) entendessem que ele não estava escrevendo contos, não estava escrevendo livros? Mas que ele estava escrevendo a obra de Dalton Trevisan, seu maior personagem, seu maior livro.

Cada conto pode até ser peça de um livro. Mas, como ele, cada livro é peça da obra, que continua, cada vez mais ativa. É necessário lê-lo todo. E isso é novo. E isso é imenso. E, camaradas, ele mora aqui do lado.

***

Mas, espera aí. Essa edição toda é em tributo ao seu Vampiro. Isso tudo será dito em todos os tons, por resenhistas muito mais sutis e finos que eu (e enquanto eu escrevia essa frase, soube que ele ganhou o prêmio Camões!) E o que tinham me pedido era um texto sobre essa "vizinhança", sobre conviver nas pertitudes de Dalton Trevisan.

E cá vou eu na dele mais uma vez, insistindo que o conto há de ser maior, e mais interessante, que o contista? (...)

Eu aqui de confábulos com o fabulante com que nunca nem fabulei direito, pra conspirar a favor da mania de escondidismo do autor?

Pois sabe que é mais ou menos bem isso?

Que, A, eu, se possível, não quero que uma pessoa a mais fique imaginando onde mora o Trevisan? (Ok, todo mundo meio que já sabe, mas mais abaixo fica meio claro porque eu acho importante esse teatro.)

Que, B, eu não tenho:

. Cacife pra posar de "chegado" (Troquei meia dúzia de palavras com o homem, nas esquinas da vida, sempre, eu, trêmulo e bobo, feito um... feito um... vá lá: feito um fã de Dalton Trevisan falando com Dalton Trevisan!)

. Interesse em posar de "chegado" (Eu sei que não foi isso que me pediram. Sei muito bem. Isso aqui sou eu brigando com as minhas neuras, noias minhas).

Que, três, eu acho a invisibilidade e a recolhidez de Trevisan uma coisa lindamente refrescante e refrescantemente linda.

***

Na minha modesta opinião, o maior escritor americano vivo é Thomas Pynchon. Um "recluso" que vive no meio de Manhattan.

Na minha imodesta opinião, o maior escritor brasileiro mora a poucas quadras da minha casa. No meio de uma cidade grandota (Nesta cidade do Rio , / De dois milhões de habitantes, / Estou sozinho no quarto, /Estou sozinho na América,). E eles, os dois, conseguem isso. Obtém.

Porque a alta literatura, a literatura grande, ainda não é a televisão das celebridades. Porque a gente (eu, você e ele, que somos nós todos) ainda vive num mundo que SABE que o contista vale mais. Que respeita o desejo de um sujeito normal (certo, bisonhamente mais talentoso do que todo mundo, mas ainda assim, né?) ser ainda tratado e viver como um sujeito normal.

Eu tenho uma misturinha de vergonha e de orgulho dessas duas vezes em que parei o cavalheiro na rua e tremulei feito bandeira murcha pra dizer que era fã e pra perguntar uma coisa. Eu devia ter, sempre, deixado Trevisan ser Trevisan; devia ter, sempre, deixado Trevisan ser o Vampiro. É o que ele quer. E o meu trabalho é respeitar. Mas e o orgulho? Ai ai ai, coisa feia.

Mas tem orgulho. De saber, inclusive (por que te ufanas de teu contista, ó asno digitante!), que o maior escritor desse brasilzinho varonil mora aqui, a poucas quadras da minha casa, sobe a rua com saquinho de pão, e vez por outra almoça no mesmo restaurante, a poucas mesas distante de mim, me dando uma ligeira sensação de não morar nesta cidade, ou de morar numa cidade que subitamente deixou de ser a mesma; passou a ser o mundo.

CAETANO W. GALINDO É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ E TRADUZIU, ENTRE OUTROS LIVROS, ULYSSES, DE JAMES JOYCE (RECÉM,-LANÇADO PELA COMPANHIA DAS LETRAS)

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20 de janeiro de 2012

a violência policial e a cobertura da imprensa: dois casos paradigmáticos

[Detroit, MI, US.
July 1967.
Lee Balterman.
Life] 


Fábia Berlatto*

Acompanhando a cobertura da imprensa sobre a implementação do projeto “Nova Luz” em São Paulo e o objetivo de acabar com a “Cracolândia”, lembrei-me de como foram veiculadas, aqui em Curitiba, as ações da Guarda Municipal e da Polícia Militar no ano passado no Parque Barigui tanto contra a frequência de jovens da periferia, como contra o consumo de álcool naquele local. Gostaria de refletir sobre essa espécie de jornalismo que se pratica cotidianamente.

Nós sabemos que a imprensa dispõe de um poder real que é não apenas o de veicular, mas o de impor um modo de representação do mundo social. Por isso que os jornalistas são conhecidos como formadores de opinião. E isso se dá, em grande medida, porque a imprensa é portadora de um discurso autorizado, e por isso legítimo, sobre a realidade social. Então, mais do que produzir e difundir “informação”, a imprensa contribui para que se desenvolva uma visão de mundo que reflete a forma mais comum de representar esse mundo. É por isso que ela acaba, na maioria das vezes, reforçando o senso comum.

Apesar do discurso da neutralidade, da objetividade, da função apenas informativa ou por vezes crítica, os enunciados da imprensa – sejam as reportagens, sejam as análises – devem ser tomados como uma versão negociada dos fatos.

A realidade social que o noticiário apresenta, representa uma duplicação, um reforço e uma confirmação da legitimidade de um modelo de sociedade e, no caso dos eventos que citei, de uma política de segurança pública que nós adotamos.

Sobre quem sempre recai o rótulo, que acaba se transformando em identidade, de perigoso, de intratável, de indesejável? Esses estereótipos acabam encobrindo a realidade, encobrindo o que gera, por exemplo, o elevado consumo de álcool, ou de crack, as agressões aos guardas municipais e as agressões dos policiais a esses jovens que se encontram em situações que nem lhes caberia lidar. É como se existisse uma categoria social de frequentadores dos espaços públicos – os manos, os vileiros – que fosse constituída por uma espécie de inimigos não integráveis à sociedade. Eles não deveriam estar nos nossos parques, nos nossos shoppings, mas em outro lugar. De preferência, longe dos nossos olhos. No caso do Bairro da Luz, trata-se de recuperar áreas degradadas, de combater o consumo e o tráfico de drogas através da mera eliminação dos indesejáveis.

Essa visão do mundo social que a imprensa repercute influencia o comportamento dos cidadãos e dita as políticas de governo. E essas políticas tem privilegiado o reforço do controle social pelo viés policial. Então, há uma circularidade entre o que dizem os diversos veículos e o que diz o Estado através dos seus porta-vozes autorizados. Recuperem e reparem, no caso do Parque Barigui, o que disseram os guardas municipais, o secretário de defesa social, por exemplo, e o que disseram os jornalistas. Os parques, os locais públicos são lugares de acesso das famílias apenas, das pessoas “de bem”.

Os jornalistas acabam trabalhando muitas vezes como agentes do campo estatal tanto pelas questões que eles colocam, quanto pelas que deixam de colocar. Essa coisa da “boa sociedade” e da “má sociedade”, “de gente de bem”, de “gente de família”, de “gente bem intencionada”, de “gente mal intencionada” é exatamente o que a população quer ouvir. Não são assim os programas “jornalísticos” de TV no final das tardes? É essa percepção sobre como o mundo social estaria dividido e organizado que acaba, no fim das contas, gerando um tipo de demanda por segurança pública.

Essa circularidade entre os discursos do senso comum, da imprensa e dos governos se deve aos próprios mecanismos de funcionamento da profissão jornalística, cuja lógica de concorrência restringe, entre outras coisas o tempo, mas principalmente as fontes de informação.

Assim é que se constitui uma espécie de impregnação mútua de representações sobre o mundo social que circulam, de forma viciada, entre o campo político/burocrático e o campo jornalístico, na medida em que os operadores de um e de outro se constituem em fontes de consulta recíproca. E, em geral, os “especialistas” acionados só são escolhidos na medida exata em que confirmem essa percepção.

Para entender os processos sociais em que essas pessoas indesejáveis – jovens, pobres, pretos, etc. – se envolvem, é preciso recorrer à forma como eles expressam seus comportamentos, os seus gostos, as suas esperanças e desesperanças. Só que não podemos deixar de lado as condições sociais e políticas que determinam as características peculiares dos seus comportamentos.

* Fábia Berlatto é mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná e integra o CESPDH – Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da UFPR.
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3 de março de 2010

Drogas, pobres e mortes

[Menino e Pistola, Favela da Rocinha, 1999.
André Cypriano. Pirelli/MASP]

Gazeta do Povo, 3 mar. 2010, p. 2.

Fábia Berlatto

Por que tantas mortes violentas em Curitiba e na região metropolitana?

Apesar de as atividades ligadas ao varejo de drogas terem mudado muito nas últimas duas décadas devido à associação com a cadeia internacional de produção e distribuição de produtos ilícitos, isso não quer dizer que haja, muito menos em Curitiba, o que comumente se chama de “crime organizado”, naquele modelo das máfias, dos exércitos, etc. que se baseiam na ideia de honra, de fidelidade. Muito pelo contrário: o fato de o comércio de drogas se caracterizar por um equilíbrio precário de poder é uma das explicações para o aumento de casos de mortes violentas em seu circuito.

O acirramento dos conflitos pelos pontos de venda é constante e crescente, o que exige um processo dinâmico de substituição dos agentes participantes. O fato de os traficantes “locais” serem substituídos por traficantes “de fora” aumenta ainda mais a violência, já que esses últimos não têm qualquer laço comum, qualquer envolvimento prévio com os moradores das áreas onde atuam. Não esqueçamos que os policiais são também responsáveis por um grande número de mortes. 

Esse processo dinâmico de busca pelo monopólio de certos territórios é um dos elementos fundamentais para entender, entre outras coisas, o processo de juvenilização dos agentes envolvidos no narcotráfico. Convém lembrar ainda que no estágio da vida que hoje chamamos de juventude, a necessidade de identificação e reconhecimento social é mais aguçada. Isso é importante para pensar, entre outras coisas, a preponderância da associação entre identidade viril e a prática de atos agressivos e violentos entre jovens de sexo masculino (de qualquer classe social, diga-se).  No entanto, nessa categoria etária são poucos aqueles que aderem ao tráfico.

Quanto às mulheres, elas são historicamente muito menos violentas que os homens, e ainda que seja possível verificar um aumento da participação feminina nas redes do tráfico, elas geralmente ocupam posições que não exigem enfrentamento e, portanto, o uso da força armada.

Mas o mais importante a ser dito é que o fato de o maior número de mortes relacionadas ao tráfico ocorrer em bairros periféricos, especialmente nas favelas, não quer dizer que a pobreza e os baixos índices de educação sejam determinantes da criminalidade e da violência. Sobre essa “interpretação”, deve-se dizer duas coisas: enquanto os grandes comerciantes, os intermediários e os financiadores do comércio de drogas podem permanecer invisíveis, a venda a varejo, a etapa mais visível e por isso mais arriscada das transações, se concentra predominantemente em favelas; por outro lado, o comércio que envolve o consumidor final, que quase nunca se realiza em “bocas”, mas em toda a cidade, inclusive em bairros “de alto padrão”, encontra-se protegido por uma série de mecanismos de tolerância social.

A consequência disso é que a criminalização do tráfico de drogas recai preferencialmente sobre os pobres. Isso já foi insistentemente repetido e, mais importante, comprovado por pesquisas sociais. Se há um maior número de pretos, de pobres e de pretos pobres nas penitenciárias brasileiras, não é porque há neles ou nas favelas um condicionante, seja ele geográfico, genético, psicológico ou sociológico. Isso tem a ver com os mecanismos que o Estado adota no enfrentamento da criminalidade (e também com aqueles que decide não adotar).

A sociabilidade violenta que caracteriza a relação entre os bandos de traficantes de drogas é distinta daquela que articula os moradores das favelas entre si. Esses últimos também sofrem, e sofrem ainda mais devido à proximidade territorial com os conflitos, o que os obriga a viver perenemente em situação de risco, a terem suas rotinas e sua sociabilidade normal alteradas pelo medo e pela insegurança.

É importante enfatizar, por último, que o tráfico de drogas só é possível através de uma rede de interdependência formada por diversos agentes sociais, desde o consumidor até o Estado. Tanto o tráfico de drogas quanto o de armas, que viabiliza o primeiro, é inviável também sem a participação ativa de agentes estatais como policiais corruptos. Evidentemente, estes não são os únicos responsáveis pelo funcionamento e pela eficiência desse sistema.

O tráfico de drogas não é um evento desconectado da dinâmica social, não é um fato isolado que acontece fora das nossas vistas, longe, nas “periferias”. O tráfico de drogas é um sistema que inclui e integra vários agentes sociais, que tem poderes distintos e status sociais diferentes.

Esse sistema contém uma perversão intrínseca. Ele transfere toda a violência que lhe é inerente para as áreas pobres das cidades, garantindo, por sua vez, a tranquilidade da maioria dos consumidores endinheirados e dos chefões comerciais e financeiros desse esquema. Isso não só estigmatiza, mas deixa ainda mais vulneráveis aqueles jovens pobres que quando têm alguma oportunidade de trabalho, são para ocupações miseravelmente remuneradas e em condições extremamente desestimulantes.

Fábia Berlatto é cientista social, membro do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da Universidade Federal do Paraná e mestre em Sociologia pela UFPR.
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