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Sergio Simoni Junior, Rafael Moreira Dardaque, Lucas Malta Mingardi. A elite parlamentar brasileira de 1995 a 2010: até que ponto vai a popularização da classe política? Colombia Internacional, n. 87, p. 109-143, maio-ago. 2016 .
O objetivo deste artigo é debater a tese da popularização do perfil social dos parlamentares brasileiros buscando ressaltar que a literatura, ao ignorar a assimetria de poder institucional entre os legisladores, pode apresentar um viés no seu diagnóstico sobre as características da representação política no Brasil.
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18 de janeiro de 2010

Como se faz um Haiti?


[Haiti, 1937
Rex Hardy. Life]

Folha de S. Paulo, 17 jan.2010
   
VINICIUS TORRES FREIRE

O HAITI era um lugar tão miserável como tantos outros da América Central em meados do século 20. Mas talvez já estivesse pronto para se tornar um dos piores buracos do inferno sobre a Terra.

Sua agricultura comercial se degradara desde a independência. A reforma agrária dos anos 1820 criou uma extensa classe de pequenos agricultores, de culturas pouco produtivas, em solos destroçados por técnicas primitivas, estrutura fundiária que resiste até hoje. A cleptocracia escancarada é uma forma de governo estabelecida desde meados do século 19, quando também se firmou a estratificação social racista, a divisão entre mestiços e negros que, no entanto, vem do tempo das guerras revolucionárias. Também enraizado era o analfabetismo imenso.

Os dados mais antigos confiáveis, dos anos 1970, dão o Haiti como um dos países mais iletrados da região. Seja qual for o motivo mais profundo, o Haiti tornou-se definitivamente a retaguarda do atraso latino-americano a partir dos anos 1960. A data coincide com o início do regime dos Duvalier (1957-86), apoiados pelos EUA.

Mas outros países da região tiveram ditadores dementes e genocidas, a começar pela vizinha República Dominicana de Rafael Trujillo, que roubou e aterrorizou o país de 1930 a 1961.

Como de costume na América Central, os haitianos foram vítimas de golpes patrocinados por comerciantes europeus e americanos, que bancavam o aventureiro político da ocasião a fim de ganhar uns trocados. Invasões americanas também foram normais na região. O Haiti foi ocupado pelos Estados Unidos de 1915 a 1934, que tomaram conta das finanças do país até 1941. Mas esse foi um período de rara estabilidade no Haiti. Os americanos fizeram obras de infraestrutura e puseram ordem na economia.

Os haitianos mais educados começaram a fugir em meados do século 20. Segundo o dado mais recente do Banco Mundial, 140 mil pessoas deixaram o país em 2005 (os haitianos são 9,5 milhões).

A remessa de dinheiro dos expatriados equivale a 17% do PIB. A receita de impostos do governo é de 11% do PIB, mas o governo gasta o equivalente a cerca de 20% do PIB -doações internacionais etc. completam a diferença, segundo uma comissão conjunta do FMI e do governo haitiano.

Cerca de 55% da população vive com menos de 40 gourdes por dia, o equivalente a US$ 1 ou R$ 1,75. O quinto da população mais "rica" fica com 70% da renda; os 20% mais pobres, com 1,4%, uma das piores distribuições de renda do planeta (parecida com a do Brasil nos anos 1990).

Na década seguinte à queda dos Duvalier, o PIB per capita recuou 4,6% ao ano (1987-97). De 1997 a 2007, 1,3% ao ano. Os golpes e lutas entre 1987 e 2001 destroçaram o país. O embargo econômico de 1991 a 1995, imposto por EUA e ONU, acabou com quase todo o resto.

Para piorar, houve a alta do preços das commodities pré-crise. O Haiti importa 33% do valor do PIB, muita comida e petróleo. Exporta 12% do PIB. Cerca de 90% das exportações saem das maquiladoras, montadoras de manufaturas baratas em zonas francas, as mesmas empresas que foram trucidadas na crise do embargo dos anos 1990. Quatro furacões em 2008 completaram o estrago. O Haiti quase não existe.

vinit@uol.com.br
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