artigo recomendado


Lopez, Felix, & Almeida, Acir. (2017). Legisladores, captadores e assistencialistas: a representação política no nível local. Revista de Sociologia e Política, 25(62), 157-181.
O artigo analisa a representação política local, focando as percepções e práticas cotidianas dos vereadores. Em particular, analisam-se suas escolhas entre estratégias de representação clientelistas e universalistas. Utilizam-se dados originais de entrevistas abertas semiestruturadas com amostra não representativa de 112 vereadores de 12 municípios de Minas Gerais. Por meio de análise qualitativa, classificam-se os vereadores em três tipos, de acordo com sua principal estratégia de representação, a saber: “legislador”, que se dedica mais às funções formais da vereança; “captador”, que prioriza o atendimento de pedidos coletivos dos eleitores; “assistencialista”, que prioriza o atendimento de pedidos particulares. Os resultados sugerem que essas estratégias são qualitativamente distintas e que a probabilidade de ocorrência do tipo assistencialista é maior em municípios pequenos, crescente no acirramento da competição política e decrescente na volatilidade eleitoral.
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24 de setembro de 2009

a Sociologia como ciência da sociedade


[Estação da Luz, 1981.
Antonio Carlos D'Ávila.
Col. Pirelli/MASP]



A Sociologia é um ofício que se recusa a ver o universo social tal como ele se apresenta diante de nós: definitivo e imutável.

O senso comum, aquela visão herdada e reiterada sobre o mundo social, quer fazer crer que as coisas são como são, isto é: que as desigualdades são naturais, nosso modo de vida é universal, nossa forma de organização social é superior, nossos valores específicos são aplicáveis a tudo ou a quase tudo que existe, as hierarquias são necessárias para que as coisas funcionem, as diferenças culturais nunca são bem-vindas e o poder é legítimo por que é, afinal, o poder estabelecido.

O sociólogo, a fim de pôr em devida perspectiva essas miragens arrogantes, deve ser capaz de superar ao menos duas coisas: o conformismo intelectual – para buscar as causas, as conexões entre as causas e o sentido oculto dos processos e instituições sociais, tornando-os compreensíveis a todos; e seu assombro moral diante dos fatos mais esquisitos, longínquos ou excêntricos, principalmente quando elas estão em desacordo com os seus valores e ideais. É preciso compreender, ao invés de julgar.

Assim, o propósito das Ciências Sociais é procurar dizer como o mundo social é, e não como ele deveria ser. Nesse sentido, a Sociologia não é uma terapia coletiva, que pretende curar a sociedade dos seus males, nem uma engenharia social, que deseja reorganizá-la de um modo mais racional, eficaz ou justo.

Há uma confusão em torno das Ciências Sociais, muitas vezes alimentada e difundida pelos próprios cientistas sociais: a Sociologia teria uma missão, que é, imodestamente, a de consertar o mundo. De acordo com esse entendimento, mais comum e mais persistente do que se imagina, a disciplina seria uma espécie de introdução à discussão sobre os “problemas sociais”. Daí se seguiria, quase que automaticamente, uma tomada de consciência coletiva da desigualdade e da injustiça existentes no mundo. Cumprida essas etapas, deveríamos passar à assistência social (ou, nas visões mais radicais, à revolução social).

A Sociologia, ao contrário, é uma atividade intelectual, não uma atitude moral; é uma disposição crítica, não uma ideologia política. É, acima de tudo, um ponto de vista privilegiado, capaz de examinar e considerar minuciosamente tanto um conjunto de valores quanto um costume, tanto um comportamento quanto uma instituição social ou política, restituindo a eles sua verdade histórica e seu sentido social.

Essa atividade tem um traço específico e é isso o que caracteriza o empreendimento sociológico. A Sociologia, afirmou Émile Durkheim, deve ser capaz de explicar o social pelo social.

Isso não é uma redundância. Significa, em outras palavras, que a cultura, os valores, os costumes, a tradição, os comportamentos, os procedimentos e as instituições devem ser entendidos a partir de suas causas (ou funções) sociais, e não em razão de motivos psicológicos, morais, religiosos, políticos, ideológicos, econômicos, etc. Na realidade, é a psicologia, a moralidade, a religião, a política, a ideologia e a economia que devem ser explicadas pela Sociologia – isto é, pelas condições sociais que as tornam possíveis ou necessárias. Cabe à ciência social, por exemplo, observar à psicanálise que Freud esqueceu-se de uma verdade fundamental, que Édipo era um rei, como enfatizou Pierre Bourdieu. Ou seja, a analogia derivada do mito e sua potência explicativa e curativa dependem antes de tudo do reconhecimento das determinações sociais dos comportamentos individuais.

A introjeção desse modo peculiar de ver e dizer o mundo social exige, como qualquer outra habilidade, treino e técnica. A inclusão da Sociologia nos currículos do ensino médio é a oportunidade para exercitar essa prática desde cedo. A aprendizagem dos conceitos e das teorias sociais é, por sua vez, o pré-requisito indispensável para a aquisição desse método de análise.

Adriano Codato

[Este texto foi escrito como introdução
ao projeto pedagógico da disciplina Sociologia
do colégio Positivo; set. 2009]

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Um comentário:

Anônimo disse...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu