artigo recomendado


Franz, Walter F. Nique. (2016). Aderentes e militantes: a participação político-partidária na era do Partido Cartel. Revista de Sociologia e Política, 24(60), 91-113. https://dx.doi.org/10.1590/1678-987316246004.
O artigo analisa o estado da arte da literatura sobre as transformações nas formas de participação político-partidária produzida nas últimas décadas. Dois objetivos principais guiam nossa argumentação: (i) fornecer um panorama de referência que possa contribuir ao desenvolvimento de pesquisas sobre esta temática e (ii) atenuar a segmentação que caracteriza as distintas correntes analíticas. Revisando trabalhos publicados em revistas e livros anglo-saxões e franceses, comparamos suas problemáticas, as questões teóricas subjacentes, bem como os métodos de administração da prova utilizados. Destarte, identificamos a estruturação de dois campos de produção politológica que se comunicam pouco. De um lado, uma tradição “Political Science”, mainstream, cujos estudos privilegiam uma abordagem sistêmica e comparada, apoiando-se em uma demonstração fundamentalmente estatística. De outro lado, uma tradição “Sociologie Politique” desenvolvida na França e cuja perspectiva de análise é internacionalmente pouco conhecida. Influenciadas pelo paradigma interacionista, suas pesquisas empregam o método sócio-etnográfico e redirecionam o foco de análise aos níveis meso e micro social. Fazendo um balanço crítico das principais contribuições de ambas as vertentes, apontamos algumas tendências atuais observadas pelos especialistas. Insistimos, particularmente, no potencial heurístico oferecido pelo enfoque da Sociologia Política para agregar novos elementos para a compreensão deste fenômeno.
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29 de dezembro de 2016

medindo o conservadorismo dos brasileiros

[Série Sumaré, 1998
vidro sobre vidro
160,0 x 110,0 cm (175,0 x 125,0 cm)
montagem © Alex Flemming.
Pirelli MASP]

Entrevista ao NexoJornal

Como é medido o conservadorismo do eleitor e quais os limites dessas projeções
* Bruno Lupion 28 Dez 2016 (atualizado 28/Dez 15h26)

http://bit.ly/2hzdKne

Pesquisa Ibope identificou expansão da parcela mais conservadora no Brasil. Há diversas formas de classificar as preferências de uma pessoa em um mapa ideológico, mas definições suscitam críticas.

O Nexo perguntou a dois professores se a classificação dos eleitores entre conservador, liberal, esquerda e direita é adequada para explicar as diferentes inclinações políticas em uma sociedade:

É possível dividir as pessoas em esquerda, direita, liberal e conservador para tentar explicar a sociedade hoje em dia?

ADRIANO CODATO : Sim, todo os comportamentos sociais são passíveis de mensuração e classificação. Como a gente não deve assumir que cada indivíduo é absolutamente único, e que os comportamentos são socialmente condicionados, é possível achar padrões e tendências em atitudes, valores e interesses.
Porém, há boas medidas e más medidas. Simplesmente perguntar se a pessoa é de esquerda ou de direita é ruim, porque supõe que o entrevistado tenha os conceitos de esquerda e direita como os da filosofia política. E as pessoas não necessariamente têm esse entendimento.
É preciso tomar uma série de atalhos para medir esses comportamentos. Um desenvolvimento interessante é o Political Compass, que tem mais de 30 questões. Quando há poucas questões e poucas alternativas para as respostas, você pode forçar posicionamentos e ninguém vai para a coluna do meio, que é onde ficam os que têm opiniões nuançadas, de centro.

ROBERTO ROMANO : Nunca foi possível fazer isso. Essa utilização de esquerda, direita, centro, abaixo é muito ligada a circunstâncias, são termos imprecisos. Foram universalizados indevidamente enunciados que serviram para movimentos políticos ao longo da história.
Há um linguista, Émile Benveniste (1902-1976), que se preocupou com a questão da continuidade do discurso. Todo discurso precisa de conectores, e ele chamou certas palavras de palavras-embreagens: você vem numa determinada realidade e, em algum momento, não há possibilidade de continuar a se expressar. Aí, assim como em um caminhão quando há troca de marcha, essas palavras-embreagem servem para manter um mínimo de coerência no discurso ao longo do tempo.
Mas, se você refina a análise, vê que elas não dão mais conta do que pretendem enunciar. É complicado dividir grupos e sociedades inteiras segundo essa terminologia de esquerda, direita, conservador. Se você pega a União Soviética, supostamente ela seria de esquerda, mas primou por práticas ligadas ao fordismo, uma forma de pensar produtiva e disciplinada, que tem pouco a ver com a história do pensamento atribuído à esquerda.

Como a população brasileira se movimenta em relação a esses enquadramentos?

ADRIANO CODATO : É possível identificar padrões. Você tem uma direita autoritária, no estilo do [deputado federal Jair] Bolsonaro (PSC-RJ). Há também uma esquerda autoritária, que são esses micropartidos de extrema esquerda que só existem dentro das universidades — um exemplo são os que invadiram o departamento de ciência política da Universidade Federal de Pernambuco. Uma figura pública da esquerda liberal seria o prefeito de São Paulo [Fernando Haddad], que é a favor da regulação estatal, como reduzir a velocidade das marginais, ao mesmo tempo em que criou políticas de apoio para que pessoas transgênero possam comprar apartamento. E há um direita libertária, que são os caras do MBL [Movimento Brasil Livre]. Embora seus métodos de ação política sejam agressivos, eles têm um discurso de que o Estado deve ficar de fora, inclusive da vida privada dos indivíduos.
O que chama a atenção no Brasil é que, nas últimas métricas do World Value Survey e do Latinobarômetro, não houve aumento do conservadorismo, mas um aumento das posições extremas quando se pergunta ao entrevistado se ele é de esquerda ou de direita. Quando você vê o gráfico comparando vários países do mundo, percebe que quase todos os respondentes tendem a ficar nas posições do meio, é quase um sino perfeito — sobe no meio e cai nas pontas. O Brasil é o único país onde as pontas passam de 12% do total. Mas a gente não sabe se as pessoas que responderam ao questionário sabiam o quem estava respondendo. Em todo caso, chama a atenção que essa pesquisa foi feita após uma eleição [de 2014] com muita polarização.

ROBERTO ROMANO : Entre esses termos, o mais conhecido é o conservadorismo. O que é conservadorismo? É um pensamento que surge depois das revoluções francesa, americana e inglesa, no sentido de negar a passagem da aplicação da ciência mecânica ao plano político. Os conservadores surgiram para quebrar a hegemonia do pensamento mecânico, que vê a realidade social como uma máquina, na qual é possível aperfeiçoar o Estado artificialmente e rumar para o progresso. Eles adotam uma forma de pensar orgânica, na qual a sociedade deve crescer segundo padrões dela mesma, sem interferências externas. Para que você classifique uma pessoa ou movimento como conservador, é necessário que ela tenha essa característica, de querer manter a ética, a arte e a religião de um determinado povo.
É muito difícil dizer que o povo brasileiro pensa dessa maneira. Além de conservador ser aplicado como uma palavra-embreagem, é difícil dizer que a massa média da população brasileira é conservadora. Muitos comportamentos chamados de conservadores são próprios de uma estrutura familiar patriarcal, como o machismo. Você pode encontrar um militante de esquerda com comportamentos extremamente patriarcais, por exemplo.


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