artigo recomendado


Lopez, Felix, & Almeida, Acir. (2017). Legisladores, captadores e assistencialistas: a representação política no nível local. Revista de Sociologia e Política, 25(62), 157-181.
O artigo analisa a representação política local, focando as percepções e práticas cotidianas dos vereadores. Em particular, analisam-se suas escolhas entre estratégias de representação clientelistas e universalistas. Utilizam-se dados originais de entrevistas abertas semiestruturadas com amostra não representativa de 112 vereadores de 12 municípios de Minas Gerais. Por meio de análise qualitativa, classificam-se os vereadores em três tipos, de acordo com sua principal estratégia de representação, a saber: “legislador”, que se dedica mais às funções formais da vereança; “captador”, que prioriza o atendimento de pedidos coletivos dos eleitores; “assistencialista”, que prioriza o atendimento de pedidos particulares. Os resultados sugerem que essas estratégias são qualitativamente distintas e que a probabilidade de ocorrência do tipo assistencialista é maior em municípios pequenos, crescente no acirramento da competição política e decrescente na volatilidade eleitoral.
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9 de março de 2011

fernando pessoa, pierre bourdieu e a noção de habitus

[Date taken: 1901
Photographer: Nina Leen
Life] 

um amigo comentou: "acho mesmo que Bourdieu poderia escrever um livro sobre essa passagem de Fernando Pessoa, começando assim: 'tudo o que eu tenho a dizer sobre o conceito de habitus está condensado na passagem abaixo'...". Bingo.

Fernando Pessoa, Nota solta atribuída ao Barão de Teive. In: Obra poética. Volume único. Nova Aguillar, p. 57-58.

“O que particularmente me indignava contra mim, nesses momentos de dúvida dolorosa, em que eu sabia muito antes que a solução seria nenhuma, era a intromissão do fator social no jogo desequilibrado de minhas decisões. Nunca pude dominar o influxo da hereditariedade e da educação infantil. Pude sempre repugnar os conceitos estéreis de fidalguia e de posição social; nunca os pude esquecer. São em mim como uma cobardia, que detesto, contra a qual me revolto, mas que me prende com laços estranhos à inteligência e à vontade. Tive um dia a ocasião de casar, porventura de ser feliz, com uma rapariga muito simples, mas entre mim e ela ergueram-se-me na indecisão da alma catorze gerações de barões, a visão da vila sorridente do meu casamento, o sarcasmo dos amigos nunca íntimos, um vasto desconforto feito de mesquinhezas, mas de tantas mesquinhezas que me pesava como a comissão de um crime. E assim eu, o homem de inteligência e desprendimento, perdi a felicidade por causa dos vizinhos que desprezo.

“O modo como vestiria, as maneiras que teria, como receberia em minha casa, onde porventura eu não tivesse que receber alguém, quantas deselegâncias de frase ou de atitude a sua ternura me não pudesse fazer esquecer nem a sua dedicação velar - tudo isso me erguia como um espectro de coisas sérias, como se fosse um argumento, nas vigílias em que me debatia para o desejo de a ter na vasta rede de impossibilidades que sempre me entaramelou.

“Lembro-me ainda, com uma precisão que intercala o perfume vago do ar da primavera, da tarde em que, meditando todas estas coisas, decidi abdicar do amor como de um problema insolúvel. Era em maio - num maio de verão suave, florido pelas pequenas extensões da quinta em várias cores esbatidas pela queda lenta da tarde começada. Eu passeava remorsos de mim entre os meus poucos arvoredos. Havia jantado cedo, e seguia, sozinho como um símbolo, sob as sombras inúteis e o sussurro lento das ramagens vagas. Tomou-me de repente um desejo de abdicação intensa, de claustro firme e último, uma repugnância de ter tido tantos desejos, tantas esperanças, com tanta facilidade externa de os realizar, e tanta impossibilidade íntima de o poder querer. Data dessa hora suave e triste o princípio do meu suicídio”.
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