artigo recomendado


Sergio Simoni Junior, Rafael Moreira Dardaque, Lucas Malta Mingardi. A elite parlamentar brasileira de 1995 a 2010: até que ponto vai a popularização da classe política? Colombia Internacional, n. 87, p. 109-143, maio-ago. 2016 .
O objetivo deste artigo é debater a tese da popularização do perfil social dos parlamentares brasileiros buscando ressaltar que a literatura, ao ignorar a assimetria de poder institucional entre os legisladores, pode apresentar um viés no seu diagnóstico sobre as características da representação política no Brasil.
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12 de maio de 2009

ainda a relação entre idéias, instituições e práticas


[Cristiano Mascaro, São Paulo, 1990.
Coleção Pirelli/MASP de Fotografia]


No trabalho que escrevi para o congresso da Anpuh deste ano procurei tematizar empiricamente a relação causal entre idéias/ideologias, instituições estatais e práticas políticas. Tomei como o caso a ser considerado o Estado Novo e seus aparelhos de administração das relações interelites. Para tanto, propus um diálogo crítico com meu colega e amigo Tiago Losso que havia escrito uma tese de doutorado exatamente sobre este assunto. Nos e-mails que trocamos a respeito, solicitei que ele me dissesse quais tinham sido suas referências teóricas para sustentar a relação de causalidade que ele postula. Abaixo o e-mail que ele me enviou e que publico com sua autorização.

Vou tentar responder a sua questão, mas antes um aviso.
Eu não acho que exista um movimento linear entre idéias - práticas - instituições políticas, no sentido que a determinação e/ou causalidade possa ser perfeitamente indicada na sequencia acima citada. De qualquer forma, concordo que minha tese de doutorado {clique aqui para baixar o trabalho: Tiago Bahia Losso, Estado Novo: discurso, instituições e práticas administrativas. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Universidade Estadual de Campinas. Campinas (SP), 2006} possa indicar isso e, inclusive, se for o caso, devo ser criticado (espero que o faças).

Bom, meu "referencial teórico". No caso específico da minha tese, acho que John Pocock é uma grande inspiração, principalmente o livro que cito, "Linguagens do pensamento político". Aponto o autor como uma referência no sentido que ele está preocupado em compreender as "limitações" impostas pelo linguajar político, tanto no que toca à formulação de idéias quanto (e talvez seja já uma leitura minha) de práticas políticas (incluindo-se aqui instituições). Assim, defendo que cada época produz idéias e práticas políticas "limitadas" pelos conceitos disponíves no momento, acessado pelos atores e autores, quando interessados em resolver algum problema. No caso do nosso tema de estudo, uma ideologia autoritária (ou de elogio ao poder do Estado) foi o manancial conceitual onde, acredito eu, foram procuradas soluções para lidar com as vicissitudes políticas do período. Ou seja, a saída encontrada pelos dirigentes do Estado Novo para lidar (por exemplo) com o "engessamento" das correias de transmissão de prerrogativas foi de caráter autoritário ou, de forma mais clara, de um caráter que mesclava elogio ao conhecimento técnico e alheiamento às disputas políticas. Jonh Pocock, portanto, pode ser tomado como uma referência da minha tese. Eu ainda deveria citar Quentin Skinner como meu inspirador, quando o autor está preocupado em identificar a maneira como nossas palavras podem "fortalecer ou enfraquecer a construção do nosso mundo social" (Visões da Política, Introdução). Acho que estas duas citações indicam bem o que, acredito eu, inspirou teoricamente minhas impressões.

Agora, um voo alem...
Brincando, o mundo está entre o chão e o céu. Além de uma platitude, a idéia pode ser uma "resolução" das questões entre idéias e práticas, espírito e realização, imaginação e realidade, ideal e material. Para efeito de nosso ofício, tanto nossas idéias quanto nossa realidade são elementos de um mesmo contexto, que é seu produto e as significa, sendo que suas relações baseiam-se em constantes interferências, num fluxo onde o que se pensa "delimita" o que podemos fazer e, no mesmo movimento, o que podemos (ou queremos) fazer delimtia nosso pensar. Assim, acho que se estamos interessados no significado da ação social, e nossa tarefa é hermeneutica. Aqui, claro, minha inspiração é Clifford Geertz, onde encontro aquele que me parece o melhor conceito de cultura que temos na nossa tradição, e simultameamente um conjunto de dicas de como proceder à uma interpretação. O "descrição densa" é emblemático neste sentido, e está publicado no livro "A interpretação das culturas", e os ensaios publicados recentemente sob o título "Nova luz sobre a antropologia" dão mostras da vitalidade do trabalho substantivo do antropólogo.

No fim, num e-mail digno da disposição do G. Lacerda, acho que temos que empreender pesquisas substantivas e, circunscrito ao evento que isolamos, identificar de maneira objetiva quais os movimentos e interferências entre idéias e ações (ou instituições ou práticas).
Espero ter escrito algo dentro das suas expectativas.
Vamos nos falando.

Abraço

Tiago Losso
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