artigo recomendado


Lopez, Felix, & Almeida, Acir. (2017). Legisladores, captadores e assistencialistas: a representação política no nível local. Revista de Sociologia e Política, 25(62), 157-181.
O artigo analisa a representação política local, focando as percepções e práticas cotidianas dos vereadores. Em particular, analisam-se suas escolhas entre estratégias de representação clientelistas e universalistas. Utilizam-se dados originais de entrevistas abertas semiestruturadas com amostra não representativa de 112 vereadores de 12 municípios de Minas Gerais. Por meio de análise qualitativa, classificam-se os vereadores em três tipos, de acordo com sua principal estratégia de representação, a saber: “legislador”, que se dedica mais às funções formais da vereança; “captador”, que prioriza o atendimento de pedidos coletivos dos eleitores; “assistencialista”, que prioriza o atendimento de pedidos particulares. Os resultados sugerem que essas estratégias são qualitativamente distintas e que a probabilidade de ocorrência do tipo assistencialista é maior em municípios pequenos, crescente no acirramento da competição política e decrescente na volatilidade eleitoral.
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26 de fevereiro de 2011

Zadie Smith: o mundo criado por um segundanista de Harvard é menos divertido que a vida real

[Round attachment for IBM typewriter.
Robert W. Kelley. Life]

Quero ficar na geração 1.0
por Zadie Smith

revista Piauí fev. 2011

[...] Para simplificar, trata-se de um nerd, um maníaco por computadores, um “autista” social: tipo tão reconhecível pelo público do diretor Fincher quanto o jornalista cínico era claramente identificável no tempo de Howard Hawks. Para criar esse Zuckerberg, o roteirista mal precisa encostar a pena no papel. Já entramos no cinema esperando o encontro com o personagem, e é um prazer ver que o filme se limita a preencher de cor o que já trazíamos delineado na nossa imaginação. Às vezes, a cultura consegue inferir, coletivamente, uma personalidade individual. Ou pelo menos acha que consegue. Acreditamos conhecer exatamente os motivos que levam os nerdsaseremcomo são: ganhar dinheiro, que traz popularidade, a qual, por sua vez, atrai garotas. Zuckerberg começa sua ascensão movido pelo despeito.

Muito tempo haverá de passar antes de surgir nas telas uma figura capaz de destronar Jesse Eisenberg, o ator que faz o papel de Zuckerberg, do topo da lista de tipos nerddo cinema. Voz passivo-agressiva e praticamente monocórdia. Tédio irrequieto sempre que outra pessoa está falando. O ar de desdém quase sem disfarce. Eisenberg escolhe inclusive o andar perfeito para o seu nerd: não o arrastar de pés para os lados do corredor (Não bata em mim!), mas a marcha muito vertical de peito estufado (Minha altura não é 1m73, tenho 1,75!).

Sempre de mochila, claro. Um longo plano de quatro minutos o mostra usando exatamente esse jeito de andar para atravessar de ponta a ponta o campus de Harvard antes de finalmente chegar a seu lugar predileto, o único onde se sente realmente à vontade: diante do laptop, escrevendo no seu blog.

Sabemos exatamente quem é esse cara. Superprogramado dos pés à cabeça, furioso, solitário. [...]

Se não é o dinheiro e não são as garotas, qual é afinal sua motivação? No caso de Zuckerberg, estamos diante de um autêntico mistério americano. Que talvez nem seja tão misterioso assim, e ele só esteja insistindo numa aposta a longo prazo, evitando realizar os lucros antes da hora: não 1 bilhão de dólares, mas cem bilhões de dólares. Ou será possível ainda que ele simplesmente adore programação? Os autores do filme devem ter levado essa hipótese em conta, mas seu dilema é patente: como poderiam transmitir o prazer de programar – se é que esse prazer existe – de um modo ao mesmo tempo cinematográfico e compreensível? É mais que notório que o cinema deixa a desejar quando se trata de mostrar os prazeres e os rigores da criação artística, mesmo quando conhecemos bem a forma de expressão. [...]

No fim das contas, decepcionante é a ideia do Facebook. Se fosse uma interface realmente interessante, criada para acolher os jovens 2.0 que são genuinamente diferentes, podia ser um grande marco. Mas não é o que acontece. O que vemos é o mesmo velho faroeste da internet, só que domesticado para se ajustar às fantasias das almas de classe média dos habitantes dos subúrbios de classe média. E diz Jaron Lanier:


Esses programas surgiram há pouco tempo, e por isso exibem essa qualidade um pouco fortuita e fragmentária. É preciso resistir aos canais mais fáceis para os quais tentam nos conduzir. Se você se apega a um meio de expressão constituído por um software, corre o perigo de se ver enredado nas ideias descuidadas que alguém andou tendo recentemente. É preciso resistir a isso!

Devemos então resistir ao Facebook? Nele, tudo é reduzido à escala do seu fundador. É azul porque, por acaso, Zuckerberg sofre de um daltonismo que não distingue o verde do vermelho. “O azul é a cor mais bem definida para mim – enxergo todos os tons de azul.” Nele, existe a ação poke, de “cutucar”, porque é o mesmo gesto que alguns rapazes tímidos usam para chamar a atenção das moças que eles têm medo de abordar com palavras. Concentra-se em torno de informações triviais porque, para Mark Zuckerberg, a troca de trivialidades pessoais é o que constitui a “amizade”. Estávamos destinados a começar uma vida on-line, o que prometia ser extraordinário. Mas que tipo de vida? Contemple seu mural do Facebook de uma certa distância: de repente não começa a ficar meio ridículo que a sua vida esteja nesse formato?

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