artigo recomendado

Bolognesi, B., Ribeiro, E., & Codato, A.. (2023). A New Ideological Classification of Brazilian Political Parties. Dados, 66(2), e20210164. Just as democratic politics changes, so does the perception about the parties out of which it is composed. This paper’s main purpose is to provide a new and updated ideological classification of Brazilian political parties. To do so, we applied a survey to political scientists in 2018, asking them to position each party on a left-right continuum and, additionally, to indicate their major goal: to pursue votes, government offices, or policy issues. Our findings indicate a centrifugal force acting upon the party system, pushing most parties to the right. Furthermore, we show a prevalence of patronage and clientelistic parties, which emphasize votes and offices rather than policy. keywords: political parties; political ideology; survey; party models; elections

29 de junho de 2012

Weber e a burocracia chinesa

[Regent of 10th Panchen Lama, 
Lo Sh'ang Chien Chan, outdoors, 
smiling slightly, wearing Chinese dress 
and mandarin's cap at Kumbum Lamasery.
1947, Mark Kauffman. Life]

Trecho traduzido de: KRAUS, Richard Kraus, “The Chinese State ad Its Bureaucrats”. In NEE, Victor & MOZINGO, David (org) State and Society in Contemporary China. Ithaca e Lobdres: Cornell University Press, 1983.  


"É fácil descartar como um jogo de salão a comparação entre os elementos oriundos da sociedade chinesa imperial e da contemporânea. Mas após refletir sobre a analogia entre marxismo e confucionismo, e argumentado contra a noção superficial de que nada mudara na China, Joseph Levenson afirmou: “Ainda, a aparência de sobrevivências não é, de forma alguma, uma ilusão de ótica. Muitos tijolos da antiga estrutura ainda estão por aí – mas não a estrutura. Fragmentos podem sobreviver por que descobriram um novo apelo, não por que carreguem (mais do que os fragmentos esquecidos) a essência de uma tradição invencível[1]. Entre os fragmentos da velha estrutura que têm sido, na nova, assiduamente cultivados, há uma sensibilidade organizacional que foi há muito analisada por Max Weber sob a rubrica do patrimonialismo[2]. Segundo a leitura de Reinhardt Bendix, “Weber usou o termo para se referir a qualquer tipo de governo organizado como maior ou menor extensão da casa real. Funcionários são, na origem, servidores da casa, e permanecem dependentes do governante pelo tempo que o patrimonialismo permanecer intacto”[3].  

É claro, os escritos de Weber sobre a China foram baseados em fontes secundárias, muitas das quais têm sido superadas, no detalhe e na interpretação fundamental, pela pesquisa acadêmica contemporânea sobre a China. Mas o significado na incursão de Weber na sociologia histórica chinesa não está na acurácia de sua sinologia, mas na persistente utilidade do tipo-ideal através do qual procurou capturar uma dinâmica fundamental da vida política chinesa. Weber elaborou sua oposição entre governante e casa real em uma característica patrimonial ampla, de tensão criativa entre o monarca e o funcionalismo. Os escritos de Levenson são o esforço contemporâneo mais notável de interpretação da política imperial chinesa como uma tensão mútua entre trono e funcionários, uma oposição vital de interesses que por longo tempo animou a cultura da política chinesa[4].

 Muitas das características do regime patrimonial, como a distinção radical entre educados e iletrados, têm sido vigorosamente combatida pelo Partido Comunista. Parece também que a luta contra o passado mandarim da China tem sido fortemente colorizada por esta tradição burocrática patrimonial. Como Levenson sugere, as semelhanças são muito freqüentes para serem ignoradas. Como a antiga gentry, os quadros socialistas advogam por uma burocracia aberta e não hereditária, formada por funcionários generalistas. A oposição maoísta entre adesão doutrinária[5] e expertise ecoa a máxima confuciana: um cavaleiro não é uma ferramenta. Literatos e quadros enfatizam a persuasão moral como um dispositivo para governar preferível à legislação fixa, e modelos de virtude são ainda propagados como exemplo para a população. Enquanto as lições aprendidas de Marx, Engels, Lênin e Mao seguramente diferem em conteúdo daquelas presentes em Confúcio, Mêncio, e nas histórias dinásticas, a suposição de que a sabedoria pode se derivar do judicioso estudo dos textos clássicos permanece constante. O entusiasmo contemporâneo por projetos de construção em massa lembra a antiga corvéia; ambos se enquadram numa tradição de supervisão estatal de obras públicas. Novamente, o modelo patrimonial chama a atenção para a importância da intriga na corte – vários grupos buscando a atenção do imperador. A queda de Lin Bao ou da Gangue dos Quatro foi, com certeza, mais complexa que as maquinações dos eunucos do palácio, mas o paralelo demanda um exame mais apurado do que aquele que normalmente recebe.

Existe uma tentação de explicar tal paralelo apenas por características culturais; depois de tudo, a ascendência do mandarinato imperial persistiu por vários séculos, e suas orientações relacionadas à vida política não parecem prestes a desaparecer. Mas a dica de Levenson, de que se deve procurar pelos fatores estruturais para se explicar tais sobrevivências, demanda que façamos mais do que descartar, como vestígio, características patrimoniais do Estado chinês contemporâneo. Weber insiste que “acima de tudo, a função patrimonial não conhece a separação das esferas privada e da função”[6]. Traçando uma clara distinção entre o que via como uma administração burocrática “moderna” e uma administração patrimonial, Weber oferece um ponto que é aplicável também a um estado socialista em que funcionários não dispõem de recursos materiais independentes:

“Portanto, em contraste com a burocracia, a posição do funcionário patrimonial deriva de uma submissão puramente pessoal ao governante, e sua posição face aos diferentes temas é meramente o aspecto externo dessa relação. Mesmo quando o funcionário político não é um dependente pessoal da casa real, o governante exige obediência administrativa incondicional. A lealdade do funcionário patrimonial à função... não é um compromisso impessoal... face a tarefas impessoais, o que define sua extensão e seu conteúdo. É, antes, uma lealdade de servidor baseada numa estrita relação pessoal com o governante, e numa obrigação de fidelidade que, em princípio, não reconhece limite”."[7]

[1] LEVENSON, Richard R. Confuncian China and Its Modern Fate, 3 vols. Berkeley & Los Angeles: University of California Press, 1972, v.3, p.113. 
[2] WEBER, Max. The religion of China. New York: Free press, 1951; Economy and Society. New York: Bedminster Press, 1968. 
[3] BENDIX, Reinhardt. Max Weber: An Intellectual Portrait. Garden City: Anchor Books, 1962, p.100. 
[4] A relação entre os escritos de Levenson e de Weber sobre patrimonialismo é discutida por Frederic Wakeman Jr, “A Note on the Development of the Theme of Bureaucratic-Monarchic Tension in Joseph R. Levenson’s Work” In: The Mozartian Historian: Essays on the Works of Joseph Levenson, organizado por Maurice Meisner e Rodhes Murphey (Berkeley & Los Angeles: University of California Press, 1976, PP.123-133). 
[5] Nota de tradução: no original “redness”, vermelhidão. 
[6] Weber, Economy and Society, pp.1028-1031. 
[7] Ibid., pp.1030-1031. 


¿Pomelo ou Guaraná?: Weber e a burocracia chinesa.: Trecho traduzido de: KRAUS, Richard Kraus, “The Chinese State ad Its Bureaucrats”. In NEE, Victor & MOZINGO, David (org) State and Society i...
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6 de junho de 2012

O pânico ficou racional demais

[Wallace Kirkland, 1949
Life]


Martin Wolf
Valor Econômico 06/06/2012

Suponha que em junho de 2007 alguém lhe tivesse dito que em 1º de junho de 2012 os bônus de dez anos do governo do Reino Unido teriam rendimento de 1,54%, os do Tesouro dos Estados Unidos, de 1,47% e os da Alemanha, 1,17%. Suponha, também, que lhe tivessem dito que as taxas de juros oficiais de curto prazo estariam entre 0%, nos EUA e Japão, e 1%, na região do euro. O que você pensaria? Você acharia que a economia mundial está em depressão. Você estaria errado se pensasse em algo no estilo da década de 30. Mas estaria certo quanto à dinâmica das forças em questão: o Ocidente vive uma depressão contida; pior, as forças que empurram em direção a outra fase descendente vêm ganhando ímpeto, principalmente na região do euro. Enquanto isso, as autoridades vêm cometendo erros gigantescos.

O indicador mais forte - e causa imediata - de fraqueza econômica é a passagem do balanço financeiro do setor privado (a diferença entre renda e consumo das famílias e empresas) para uma situação de superávit. Foi o passo atrás das pessoas endividadas e assustadas que provocou a fragilidade das economias ocidentais. Mesmo países não afetados diretamente, como a Alemanha, acabam sendo atingidos indiretamente pelo retrocesso maciço de seus parceiros.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), entre 2007 e 2012, o balanço financeiro do setor privado em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) terá variado, em direção ao superávit, 7,1 pontos percentuais nos EUA; 6 pontos, no Reino Unido; 5,2 pontos, no Japão; e apenas 2,9 pontos, na região do euro. O bloco, no entanto, possui alguns países com superávits privados persistentes, mais notavelmente a Alemanha; alguns com certo equilíbrio (como França e Itália); e outros com grandes oscilações em direção ao superávit: na Espanha, a previsão é de variação de 15,8 pontos percentuais. Enquanto isso, os países emergentes também terão superávit neste ano, de US$ 450 bilhões, segundo o FMI.

Se os que têm bom crédito se recusam a apoiar quem está sob pressão, quando os que estão em dificuldade não puderem mais ficar à tona, o sistema certamente vai perecer. Ninguém sabe que danos isso poderia causar à economia mundial. Mas quem quer descobrir

Em um mundo como esse, devemos esperar baixa demanda. A disposição para adotar políticas monetárias expansionistas e tolerar imensos déficits fiscais conteve a depressão e até foi suficiente para motivar fracas recuperações. O fato de os grandes déficits fiscais e de as medidas sem precedentes de política monetária não terem originado grandes recuperações, no entanto, mostra o grau de alcance das forças que vêm deprimindo as economias. Esse é o legado de uma imensa crise financeira precedida por grandes bolhas nos preços dos ativos e uma enorme expansão no endividamento.

As finanças desempenham papel central nas crises. Na alta, geram euforia e excessos de consumo e alavancagem e, na descida, pânico, retrocesso e desalavancagem. As dúvidas quanto à estabilidade das finanças dependem da percepção sobre a solvência dos devedores. Tais dúvidas chegaram ao auge em 2008, quando os créditos lastreados em imóveis eram o centro das preocupações. A grande preocupação agora é o que ocorre na região do euro, com o agravante de que os governos - de quem dependem os resgates dos investidores durante crises sistêmicas - estão entre os devedores com problemas financeiros. Tais dúvidas vêm gerando uma fuga em direção à segurança da Alemanha e de países que continuam com soberania monetária, como EUA e Reino Unido.

Esquece-se com bastante frequência que a quebra do banco austríaco Kreditanstalt, em 1931, levou a uma onda de falências bancárias por todo o continente. O episódio acabou se revelando o início do fim do padrão-ouro e trouxe uma segunda fase descendente para a própria Grande Depressão. É preciso preocupar-se agora com a possibilidade de uma onda de quebras de bancos provocar um desmoronamento similar dentro da região do euro, o que mais se aproxima no mundo hoje ao antigo padrão-ouro. A quebra da região do euro iria, por sua vez, provocar mais rachaduras em massa na Europa e até nos sistemas financeiros mundiais, possivelmente até derrubando os muros que agora contêm a depressão.

Até que ponto isso é realista? Bastante realista. Um dos motivos é o próprio fato de haver muitas pessoas temendo esse resultado. Em momentos de pânico, o medo ganha poder próprio. Para aplacá-lo, é necessária uma instituição de crédito de última instância, disposta a - e capaz de - agir em escala ilimitada. Não está claro se a região do euro dispõe de tal instituição. Os fundos alocados para respaldar países em dificuldade são, sob vários aspectos, limitados. O Banco Central Europeu (BCE), embora na teoria capaz de agir em escala ilimitada, pode não o ser na prática, caso as corridas que precise enfrentar sejam grandes demais. As pessoas devem estar se perguntando qual é o limite de crédito que o Bundesbank, autoridade monetária da Alemanha, estaria disposto (ou teria permissão) para oferecer a outros bancos centrais em caso de corridas em massa? Em uma crise profunda, será que mesmo o BCE, para não citar os governos, poderia agir de forma eficiente?

Além disso, as pessoas sabem que tanto bancos como governos estão sob pesado estresse em países importantes que parecem carecer de qualquer perspectiva de voltar em breve ao crescimento e que sofrem os custos de um desemprego alto e ainda em crescimento. Não se pode imaginar um sinal mais claro disso do que o grito final da Espanha pedindo ajuda a seus bancos. Os sistemas políticos estão sob pressão: na Grécia, a frágil democracia implodiu. Enquanto isso, o governo alemão parece ter reiterado sua oposição à possibilidade de oferecer mais apoio.

Quanto sofrimento mais os países sob estresse podem suportar? Ninguém sabe. O que aconteceria se um país deixasse a região do euro? Será que até a Alemanha poderia cogitar sair? Ninguém sabe. Qual a estratégia de longo prazo para sair das crises? Ninguém sabe. Com tal grau de incerteza, o pânico desafortunadamente tornou-se algo natural, racional. Uma moeda fiduciária garantida por governos heterogêneos é irremediavelmente frágil.

Até agora, nunca havia realmente compreendido de que forma algo como a década 30 pôde ocorrer. Agora, compreendo. Tudo o que se precisa são economias frágeis, um regime monetário rígido, intensos debates sobre o que deve ser feito, uma crença generalizada de que medidas que provoquem sofrimento são positivas, políticos míopes e uma incapacidade de cooperar e de antecipar-se aos eventos. Talvez, o pânico desapareça. Mas as atuais taxas requeridas pelos investidores comprando bônus indicam pesada aversão a riscos. As autoridades devem eliminar esse pânico, e não atiçá-lo.

Na região do euro, as autoridades não estão conseguindo fazê-lo. Se quem bom crédito se recusa a apoiar quem está sob pressão, quando os que estão em dificuldade não puderem mais ficar à tona, o sistema certamente vai perecer. Ninguém sabe que danos isso poderia causar à economia mundial. Mas quem quer descobrir?
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29 de maio de 2012

elites and democracy

[EUA, 1938
Margaret Bourke-White
Life] 

Adriano Codato

The majority of empirical theories of politics defines “democracy” simply as method of selecting a government. They highlight the process of choosing candidates by means of elections and the conformation of institutional arrangements which authorize and structure these choices. Elections are, in this system, almost the only form of controlling and punishing political agents and equality among citizens does not go beyond universal suffrage; one person, one vote, regardless of his or her social standing.

Given these premises, institutionalized democracy is a political regime which establishes an upper limit for participation, through the electoral vote, and for opposition. Democratic regimes are regimes that are broadly open to the public contestation of those who govern, regulated by legislation.

Robert Dahl listed the institutional guarantees that would, based on these ideas, make it possible to assess whether or not a given society is politically democratic. This list contains only eight items used in evaluating an institutionalized poliarchy: liberty of organization and association, liberty of expression, voting rights, eligibility rights, competition for public offices mediated through the vote, the existence of alternative sources of information, free and impartial elections, and governments capable of truly converting citizen preferences into decisions mediated by legitimately elected governments.

An evaluation of the Brazilian political system today according to these parameters would indicate (not without some controversy) that it sufficiently meets each one of them.

In addition to the issue of the diffusion of information and its sources, the fifth proposition, especially with regard to the social conditions which underline electoral competition, requires further testing. It would make it possible, for example, to determine the degree of inclusion of each different social group/class in the political elite.

This is an essential dimension of democracy which obviously, has no bearing on the formal criteria of eligibility (the legal definition of who can be elected and to which positions), but rather with the problem of can and who cannot accede to positions of powers: the informal interdictions, the social mechanisms of exclusions, the economic barriers, etc. Studies on the homogeneous or heterogeneous socio-professional profile of the elite groups are thus essential in order to discuss the political system per se, for instance, since they refer to the socially sanctioned structure of opportunities which filters those who participate in politics.

It is in this sense that researches on elites – and especially studies on the social origins of the political elites and their transformation in the course of time – become more important in characterizing the degree of democratization of the political system. This can be measured without necessarily referring, as usual, to more participative mechanisms in decision-making processes. This is an essential dimension in considering the quality of democracy.
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23 de maio de 2012

Quando filiação partidária representa outra coisa que não interesse autônomo por política

[fotógrafo 
desconhecido] 

Emerson Cervi
Em reportagem publicada hoje, 20/5/2012, no jornal Gazeta do Povo a repórter Katia Brembatti mostra dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral sobre o número de eleitores filiados a partido político nos municípios paranaenses (ver texto). Parece surpreendente perceber que existe mais de um filiado a partido político em cada 10 eleitores do Paraná. Isso poderia ser entendido como um indicador de força dos partidos políticos? Ou que as preferências políticas dos eleitores são cada vez mais organizadas em termos partidários? É provável que em parte sim, mas não apenas isso. Com o objetivo de complementar as informações publicadas faço aqui alguns comentários sobre os dados fornecidos pelo TSE para a reportagem.
Em primeiro lugar é preciso destacar a importância de informações oficiais para o exercício da atividade jornalística. Todas as vezes que jornais publicam balanços sobre o desempenho das instituições políticas utilizando bancos de dados há uma sinalização de que a cobertura está menos focada nas “personalidades” e mais em “temas públicos”. E esse é um bom indicador de qualidade do jornalismo contemporâneo. Infelizmente a cobertura política no Brasil ainda está focada no que os políticos dizem ou fazem e não nas instituições políticas. A personalização da política banaliza a cobertura jornalística. Reportagens como essa da Gazeta do Povo são exemplos de que o jornalismo pode ser diferente.
Agora, em relação às informações de filiados a partidos no Paraná, é preciso tomar alguns cuidados. Em primeiro lugar, número de filiados não indica maior interesse por militância política. Não há nenhum limitador institucional para a militância político-partidária no Brasil. Os partidos são totalmente abertos. Portanto, para ser militante não é obrigatório, nem mesmo necessário, se filiar a uma sigla. Filiação partidária só é obrigatória para os pretendentes a se candidatar a um cargo público. Todo candidato deve estar filiado a um partido político com registro no TSE e ter domicílio eleitoral no distrito em que disputará a vaga há pelo menos um ano.
Então, poderíamos pensar que boa parte dos filiados a partidos políticos são aqueles que têm ou já tiverem interesses reais em disputar uma eleição. Porém, em cada eleição não temos mais que 1% de candidatos sobre o total de eleitores. Como explicar que no Paraná existam 12,7% de filiados? Dois fatores ajudam a entender essa diferença:
i) Como são os partidos que informam a maioria das filiações e desfiliações ao TSE e eles não têm interesse em registrar os desfiliados, todos aqueles que se filiaram algum dia e não voltaram para se desfiliar formalmente, mesmo sem ter participação ativa na vida partidária, continuam constando e “inflam artificialmente” as listas informadas pelos diretórios ao TSE. Isso tem um efeito sobre o numerador no cálculo da proporção de filiados.
ii) Os cálculos de percentuais de filiados são feitos a partir dos números oficiais da população e/ou eleitorado. Com os processos migratórios, de esvaziamento e inchaço, nas cidades essas informações nem sempre estão atualizadas. Com isso, podemos ter uma percepção de que há muitos filiados em municípios onde na verdade aconteceu uma redução no número total de eleitores. A não atualização censitária tem efeito sobre o denominador do cálculo.
Reunindo os fatores i e ii teríamos um “inchaço” do número oficial de filiados, seja porque os eleitores que um dia se filiaram não procuraram a justiça eleitoral para se desfiliar, seja porque o cálculo leva em conta populações ou número de eleitores que não são mais os mesmos nos municípios. Isso explicaria o fato de, no Paraná, municípios com maiores proporções de filiados serem de pequeno porte e em regiões mais deprimidas economicamente. Por exemplo, os municípios que apresentam os maiores percentuais de filiados em relação ao total de eleitores no Paraná, segundo informações do TSE, são Nova Santa Bárbara, com 63,95% de eleitores filiados a um partido político; Cruzeiro do Iguaçu, com 44,42% de eleitores filiados; Boa Esperança do Iguaçu, com 43,8% de eleitores filiados e Nova Aliança do Ivaí, com 42,58% de eleitores filiados. Todos pequenos municípios de regiões que apresentaram significativas mudanças demográficas na última década. Parece ser pouco provável que dois em cada três dos 3.146 eleitores atuais da pequena Nova Santa Bárbara atuem em um partido político nesse momento. No entanto, eles aparecem como filiados.
De qualquer maneira, se desconsiderarmos essa imprecisão do ponto de vista quantitativo, é possível identificar algumas características das organizações partidárias no Paraná a partir desses dados. Duas chamam a atenção:
a) os filiados nos partidos estão distribuídos de maneira mais ou menos proporcional em todo o Estado, indicando que não há estratégias partidárias dirigidas a determinadas regiões e/ou municípios paranaenses.
b) há uma concentração no número de filiados nos maiores partidos brasileiros (PMDB, PSDB, PT e DEM). Esses quatro partidos representam 44,4% do total de filiações paranaenses. Dois deles, PSDB e PMDB, têm diretórios em todos os 399 municípios do Estado. PT tem diretórios em 397 municípios e DEM está em 395 municípios. Em relação ao número de filiados, PMDB é o principal partido do Paraná, com 19,6% do total (190.340 eleitores). Em segundo lugar vem o PSDB com 9% (87.329 eleitores). Portanto, PMDB tem mais que o dobro de filiados em relação ao segundo colocado no ranking do TSE no Paraná. Em seguida vem o PT, com 8,3% do total (80.357 eleitores) e o DEM, com 7,5% (73.229).
Agora, antes que se apressem em afirmar que a filiação partidária representa um amadurecimento político e que o eleitor está mais interessado por política, vejamos como o percentual de filiados por município se relaciona com duas variáveis independentes: taxa de analfabetismo municipal e percentual de aproveitamento de votos por município.
O cruzamento com taxa de analfabetismo serve para indicar se locais com mais educação formal têm mais filiações partidárias ou não. Existem três relações possíveis: se positiva, significa que quanto maior o analfabetismo no município, mais eleitores filiados; se não houver relação, significa que o percentual de filiações independe da taxa de analfabetos; se a relação for negativa, cresce o número de filiados conforme diminui o percentual de analfabetos.
A taxa de aproveitamento de votos mostra o percentual de votos destinados a candidatos eleitos nos municípios. Aqui são usados dados da disputa para vereador em 2008. Municípios com maior aproveitamento são aqueles em que vereadores eleitos concentraram mais votos em relação ao total. A taxa de aproveitamento indica a força política dos candidatos. Quanto menor o aproveitamento, mais eleitores votaram em candidatos não eleitos. A hipótese é que mais filiações levem a um aumento do aproveitamento de votos, portanto, a uma concentração de poder político nas lideranças eleitas. Os gráficos a seguir representam essas relações.

Em primeiro lugar, a correlação entre analfabetismo e filiações é positiva, ou seja, conforme aumenta taxa de analfabetos no município, cresce o percentual de filiados. Considerando que analfabetismo está diretamente relacionado a baixo desenvolvimento econômico e social, essas filiações não devem indicar elevado grau de inserção no sistema político-partidário. Em termos alternativos, filiação partidária poderia representar relação de dependência e “cabrestagem” política de eleitores menos interessados e/ou participativos da vida partidária.
A relação entre percentual de aproveitamento de votos e filiação partidária mostra-se positiva, como esperado. Ou seja, municípios com maior percentual de filiados apresentaram mais votos destinados a vereadores eleitos em 2008. Reunindo as duas relações, podemos pensar que municípios menos desenvolvidos apresentam maiores taxas de filiações partidárias e isso reforça a relação entre lideranças políticas tradicionais e eleitores locais.
É bem verdade que as relações entre as variáveis são baixas (r2 de 8,5% na taxa de analfabetismo e 18,3% no aproveitamento de votos), no entanto, elas podem indicar uma tendência de mais filiação partidária onde eleitores são menos formados/informados sobre política e têm uma relação mais direta e permanente com lideranças tradicionais locais. Portanto, contrariando conclusões a que analistas costumam chegar quando “olham” apenas para os percentuais de filiados.
Como a relação com as variáveis anteriores mostrou-se produtiva, a seguir apresento os mesmos gráficos, porém, com os municípios separados por porte (micro, pequeno e médio). Isso para identificar se a relação entre filiações, analfabetismo e aproveitamento de votos se mantém ou é diferente nos tipos de municípios.

O gráfico da esquerda indica que os coeficientes são baixos ou nulos para os três tipos de municípios, porém, as diferenças nas direções das retas são interessantes. No caso da taxa de analfabetismo municipal, a relação é negativa apenas para municípios de porte médio. Em cidades mais desenvolvidas cresce o percentual de filiados conforme diminui a taxa de analfabetismo. Já nos municípios de pequeno porte a relação é positiva, enquanto nos micromunicípios não há direção da relação, ou seja, analfabetismo e filiação partidária são independentes. No caso da relação com aproveitamento de voto, os três tipos de municípios apresentam retas na mesma direção – positiva. Portanto, aqui não faz diferença ser médio, pequeno ou micro.
Por fim, para reforçar a ideia de que os partidos têm difusão estadual, os mapas a seguir mostram os resultados dos testes de autocorrelação espacial local (LISA) de Moran para os municípios paranaenses. O objetivo é indicar se existe alguma região do Estado onde municípios vizinhos (por isso autocorrelação local) têm comportamento distinto da média paranaense. Municípios sem cor não apresentam coeficientes significativos, ou seja, têm relação entre as variáveis próximas da média do Estado. Quanto mais forte a cor, maior a autocorrelação local entre as variáveis incluídas no modelo.

O mapa da esquerda indica os municípios onde as relações de vizinhança são mais fortes entre taxa de analfabetismo e percentual de filiados. Já o da direita mostra onde a relação entre percentual de votos aproveitados para vereador em 2008 e filiados é mais forte. Comparando as imagens é possível perceber como elas praticamente se sobrepõem. Alguns municípios da região central, oeste e norte do Paraná apresentam relações estatisticamente significativas entre filiação partidária, analfabetismo e aproveitamento de votos.
Para concluir esse breve comentário (que por estar em um weblog não é tão breves assim) sobre filiação partidária no Paraná devemos desconfiar do que os números nos mostram inicialmente. Informações de fontes oficiais são indispensáveis para entendermos a realidade que nos cerca, porém, elas não “falam” por conta própria. No caso das filiações por municípios do Paraná deve-se considerar a existência de algum desajuste entre informações disponíveis no TSE e o que elas representam de fato. O “acúmulo” de filiados que não participam da vida partidária não pode ser desconsiderado na análise dos altos percentuais de filiação no Estado e no Brasil de maneira geral.
Agora, comparando os dados disponibilizados pelo TSE aos jornalistas da Gazeta do Povo com a taxa de analfabetismo (que indica desenvolvimento sócio-educacional) e percentual de aproveitamento de voto (variável de comportamento político) é possível identificar distinções em relação ao que é apontado por políticos e analistas em geral. A filiação partidária está relacionada ao analfabetismo e ao percentual de votos em candidatos eleitos, ou seja, como não há nenhum incentivo institucional para filiação dos que não pretendem se candidatar, ao contrário do que se pensa normalmente, ela pode indicar uma relação de dependência e não de autonomia do eleitor. Evidente que esses comentários são preliminares, nada conclusivos e que buscam aprofundar a discussão iniciada de maneira positiva pela Gazeta do Povo, ao contrário do que tem predominado na cobertura política da imprensa nacional. .

13 de maio de 2012

Ferramenta mede taxa de governismo de deputados

[US Navy techician marking radar data on chart, 
tracking enemy Japanese ships in WWII Pacific theater.
1945. Life] 


http://estadaodados.herokuapp.com/html/basometro/

O Basômetro (politica.estadao.com.br/estadaodados) é uma ferramenta que permite medir o apoio dos deputados ao governo e acompanhar sua posição nas votações da Câmara.

Cada parlamentar é representado por uma bolinha com a cor do seu partido. Quanto mais próxima a bolinha estiver do governo (no alto), maior é a taxa de governismo, ou seja, o número de votos pró-governo em relação ao total de votos no período.

O slider (botão deslizável) da taxa de governismo, à direita, pode ser arrastado para cima (mais governista) ou para baixo (mais oposicionista).

No alto, um título dinâmico aponta o número de deputados pró-governo na taxa selecionada. No acumulado das 98 votações analisadas, 239 deputados votaram com o governo em 90% das vezes ou mais, e 272 votaram com o governo em menos de 90% das vezes.

Estados e partidos. Ao se clicar na bolinha, são mostrados detalhes da atuação do deputado, como quantas vezes ele votou com o governo, votou contra ou não votou, além da taxa de governismo. É possível clicar nos nomes dos partidos e verificar como foi o comportamento de cada um, isoladamente, além de selecionar as bancadas de cada Estado. Um campo de busca no topo da página ajuda a encontrar um deputado específico.

Abaixo, uma linha do tempo permite ver o comportamento dos parlamentares ao longo das votações. As teclas início e fim podem ser movidas para selecionar o período desejado.

Além da tela que mostra o comportamento dos deputados em determinados períodos, é possível abrir uma segunda visualização sobre a posição de cada partido em votações específicas.

Os dados que alimentam o Basômetro foram obtidos no site da Câmara. Foram consideradas todas as votações nominais - as únicas em que o voto individual do deputado é computado - que ocorreram desde o início de 2011. Não entram no levantamento casos em que o governo não orientou os deputados como votar.

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,ferramenta-mede-taxa-de-governismo-de-deputados,872160,0.htm

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11 de maio de 2012

Online courses Political Science

[Nixon & Kennedy Tv Debate
September 27, 1960
Francis Miller
Life]

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10 de março de 2012

análise de políticas públicas (mestrado e doutorado em políticas públicas - ufpr)

[Marcel Breuer, Bureau S285]

Código: PPU702/ Disciplina: ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS
ADRIANO CODATO (adriano@ufpr.br) e ALEXSANDRO EUGENIO PEREIRA (alexsep@uol.com.br)
Semestre/Ano: 1 / 2012 ; Tipo: Obrigatória
Carga Horária Total: 60 h.
Segundas-feiras, 14h. e 30min. – 18h.

EMENTA
Ementa: O objetivo dessa disciplina é fornecer ao aluno contato com as principais perspectivas teóricas da Ciência Política para o estudo das políticas públicas: neo-marxismo, neo-institucionalismo, teoria da escolha racional, o debate pluralismo/neo-elitismo, abordagens cognitivas. Pretende-se também analisar o desenvolvimento de políticas públicas setoriais em perspectiva comparada.

clique aqui para abrir ou baixar o programa do curso

AVALIAÇÃO
O curso está organizado com base em aulas expositivas, seminários (2 por estudante) e comentários de textos (14 comentários no total).
A cada sessão haverá no mínimo três seminários. Esses seminários serão apresentados por estudantes previamente indicados e serão destacados mais dois alunos como debatedores. Todos os estudantes devem enviar, ANTES DA AULA INDICADA, por e-mail, questões e comentários sobre os textos indicados como referência obrigatória no programa para o grupo de discussão do curso polpub2012@googlegroups.com. Todos os apresentadores e os debatedores deverão entregar, após o seminário, um relatório sobre a atividade. A participação em aula também será computada para a avaliação.
Em função do público muito heterogêneo da pós-graduação, a cada sessão estão indicados dois textos obrigatórios. Um bastante fundamental; outro de leitura mais avançada.

5 de fevereiro de 2012

teoria política I (mestrado em ciência política - ufpr)

[University Of Iowa, 1961.
Alfred Eisenstaedt.

Life] 


Código: HC 780 / Disciplina: Teoria Política I  
Professor(a) Responsável: ADRIANO CODATO
Semestre/Ano: 1 / 2012
quintas-feiras, 14:30-18:00hs.


EMENTA
Esta disciplina apresenta aos alunos os textos clássicos fundadores da Ciência Política contemporânea. Confere-se especial atenção às teorias políticas elaboradas por Karl Marx, Max Weber e pelos fundadores da Teoria das Elites (Gaetano Mosca, Vilfredo Pareto e Robert Michels). Pretende-se mostrar como tais textos colocam problemas teóricos e metodológicos fundamentais para a Ciência Política contemporânea.
 Syllabus
O objetivo fundamental desta disciplina é levar o aluno a ter contato aprofundado com textos clássicos da ciência política e da sociologia política. Tais textos estão marcados, essencialmente, pela preocupação desses autores em pensar a possibilidade de um conhecimento científico do fenômeno político. Entre outras coisas, procuraremos enfatizar as questões teóricas e metodológicas que, posteriormente, foram abordadas pela ciência política contemporânea e que serão analisadas em Teoria Política II. Por ser uma disciplina de formação, as aulas serão expositivas e será exigida dos alunos, além da apresentação de seminários, a entrega de comentários periódicos da bibliografia obrigatória.
Em função do público muito heterogêneo da pós-graduação, a cada sessão estão indicados dois textos obrigatórios. Um bastante fundamental; outro de leitura mais avançada. O programa pode ser modificado em função das características da turma.

clique aqui para acessar e baixar o programa do curso


OBS.: A (imensa) bibliografia complementar será referida em aula, a cada sessão.

AVALIAÇÃO
O curso está organizado com base em aulas expositivas, seminários e comentários de textos. A cada sessão haverá no mínimo dois seminários. Esses seminários serão apresentados por estudantes previamente indicados e serão destacados mais dois alunos como debatedores. Todos os demais devem enviar, ANTES DA AULA INDICADA, por e-mail, questões e comentários sobre os textos indicados como referência obrigatória no programa para o grupo de discussão do curso teoria-politica-um@googlegroups.com. Todos os apresentadores e os debatedores deverão entregar, após o seminário, um relatório sobre a atividade.
Para a avaliação será levada em conta a participação efetiva em sala, os comentários e o desempenho no seminário.
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20 de janeiro de 2012

a violência policial e a cobertura da imprensa: dois casos paradigmáticos

[Detroit, MI, US.
July 1967.
Lee Balterman.
Life] 


Fábia Berlatto*

Acompanhando a cobertura da imprensa sobre a implementação do projeto “Nova Luz” em São Paulo e o objetivo de acabar com a “Cracolândia”, lembrei-me de como foram veiculadas, aqui em Curitiba, as ações da Guarda Municipal e da Polícia Militar no ano passado no Parque Barigui tanto contra a frequência de jovens da periferia, como contra o consumo de álcool naquele local. Gostaria de refletir sobre essa espécie de jornalismo que se pratica cotidianamente.

Nós sabemos que a imprensa dispõe de um poder real que é não apenas o de veicular, mas o de impor um modo de representação do mundo social. Por isso que os jornalistas são conhecidos como formadores de opinião. E isso se dá, em grande medida, porque a imprensa é portadora de um discurso autorizado, e por isso legítimo, sobre a realidade social. Então, mais do que produzir e difundir “informação”, a imprensa contribui para que se desenvolva uma visão de mundo que reflete a forma mais comum de representar esse mundo. É por isso que ela acaba, na maioria das vezes, reforçando o senso comum.

Apesar do discurso da neutralidade, da objetividade, da função apenas informativa ou por vezes crítica, os enunciados da imprensa – sejam as reportagens, sejam as análises – devem ser tomados como uma versão negociada dos fatos.

A realidade social que o noticiário apresenta, representa uma duplicação, um reforço e uma confirmação da legitimidade de um modelo de sociedade e, no caso dos eventos que citei, de uma política de segurança pública que nós adotamos.

Sobre quem sempre recai o rótulo, que acaba se transformando em identidade, de perigoso, de intratável, de indesejável? Esses estereótipos acabam encobrindo a realidade, encobrindo o que gera, por exemplo, o elevado consumo de álcool, ou de crack, as agressões aos guardas municipais e as agressões dos policiais a esses jovens que se encontram em situações que nem lhes caberia lidar. É como se existisse uma categoria social de frequentadores dos espaços públicos – os manos, os vileiros – que fosse constituída por uma espécie de inimigos não integráveis à sociedade. Eles não deveriam estar nos nossos parques, nos nossos shoppings, mas em outro lugar. De preferência, longe dos nossos olhos. No caso do Bairro da Luz, trata-se de recuperar áreas degradadas, de combater o consumo e o tráfico de drogas através da mera eliminação dos indesejáveis.

Essa visão do mundo social que a imprensa repercute influencia o comportamento dos cidadãos e dita as políticas de governo. E essas políticas tem privilegiado o reforço do controle social pelo viés policial. Então, há uma circularidade entre o que dizem os diversos veículos e o que diz o Estado através dos seus porta-vozes autorizados. Recuperem e reparem, no caso do Parque Barigui, o que disseram os guardas municipais, o secretário de defesa social, por exemplo, e o que disseram os jornalistas. Os parques, os locais públicos são lugares de acesso das famílias apenas, das pessoas “de bem”.

Os jornalistas acabam trabalhando muitas vezes como agentes do campo estatal tanto pelas questões que eles colocam, quanto pelas que deixam de colocar. Essa coisa da “boa sociedade” e da “má sociedade”, “de gente de bem”, de “gente de família”, de “gente bem intencionada”, de “gente mal intencionada” é exatamente o que a população quer ouvir. Não são assim os programas “jornalísticos” de TV no final das tardes? É essa percepção sobre como o mundo social estaria dividido e organizado que acaba, no fim das contas, gerando um tipo de demanda por segurança pública.

Essa circularidade entre os discursos do senso comum, da imprensa e dos governos se deve aos próprios mecanismos de funcionamento da profissão jornalística, cuja lógica de concorrência restringe, entre outras coisas o tempo, mas principalmente as fontes de informação.

Assim é que se constitui uma espécie de impregnação mútua de representações sobre o mundo social que circulam, de forma viciada, entre o campo político/burocrático e o campo jornalístico, na medida em que os operadores de um e de outro se constituem em fontes de consulta recíproca. E, em geral, os “especialistas” acionados só são escolhidos na medida exata em que confirmem essa percepção.

Para entender os processos sociais em que essas pessoas indesejáveis – jovens, pobres, pretos, etc. – se envolvem, é preciso recorrer à forma como eles expressam seus comportamentos, os seus gostos, as suas esperanças e desesperanças. Só que não podemos deixar de lado as condições sociais e políticas que determinam as características peculiares dos seus comportamentos.

* Fábia Berlatto é mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná e integra o CESPDH – Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da UFPR.
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18 de janeiro de 2012

o projeto "nova luz" em são paulo

[Aricanduva, 1989
Cristiano Mascaro.
Pirelli/MASP] 

"Quem não vive na capital paulista e vê as notícias sobre a revoada de almas esquecidas que ainda resistem nos bairros de Campos Elíseos e Luz, onde a Caixa de Pandora da Cracolândia paulistana vem sendo aberta após décadas de descaso, talvez não entenda por que os governos do Estado e da cidade de São Paulo adotaram medida tão impressionantemente desastrada.

A ação que espalhou pela maior cidade sul-americana uma legião de verdadeiros mortos-vivos vai formando mini guetos na porta de cada um dos que acharam que poderiam deixar aquele desastre social crescer sem jamais serem afetados.

A diáspora de viciados que as forças policiais sob comando do governador e do prefeito de São Paulo provocaram gerou o que a imprensa vem chamando de “procissão do crack”. Como a operação se limitou a espantar aquelas pessoas da Cracolândia, a PM está tendo que escoltar pelas ruas da cidade grupos de até cem pessoas cada.

As regiões que estão recebendo aqueles que vão sendo tratados como dejetos humanos, reclamam. Segundo o jornal Estado de São Paulo, moradora da outra cidade, do outro país, do outro mundo contíguo ao gueto da loucura reclamou de que “Antes, eles ficavam escondidos. Agora, ninguém tem sossego” E pediu que as autoridades encontrem “algum lugar para levá-los”.

Eis o que acontece com São Paulo. Essa é a mentalidade de uma parcela enorme da sociedade paulista. Os favorecidos pela sorte querem simplesmente ignorar os dramas sociais que uma governança voltada exclusivamente para os mais ricos gerou.

Agora, essa parcela majoritária dos paulistas que mantém há quase vinte anos no controle do Estado e da capital políticos como José Serra, Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab vão percebendo que se deixam seus concidadãos se transformarem nos seres apavorantes que as imagens da Cracolândia mostram, poderão ter que recebê-los a domicílio em algum momento.

Os setores da sociedade paulistana que apoiaram que as autoridades locais deixassem o inferno florescer naquela parte da cidade já estão se perguntando sobre o propósito de uma ação policial que invade um gueto como a Cracolândia somente para espantar dali pessoas com graves problemas mentais que tendem a cometer roubos e até atos de violência sem pensar duas vezes.

Aqueles que trataram a política paulista e paulistana como disputa de futebol entre palmeirenses e corintianos, ao começarem a sentir o que a irresponsabilidade social pode gerar talvez tenham interesse em entender por que os governos estadual e municipal parecem apenas querer tirar daquela região aqueles que ameaçam a si e a todos.
Se quem nunca quis entender agora quiser, eu conto: é a especulação imobiliária, estúpido. O Bairro da Nova Luz é a nova negociata que esse grupo político que seqüestrou São Paulo está preparando".


Fonte: http://www.fas-sp.org (Acesso em: 11 de janeiro de 2012)

Clique aqui para assistir ao documentário sobre o projeto Nova Luz.

25 de dezembro de 2011

marxismo como ciência social

[capa: Joana Corona] 

Adriano Codato, Renato Perissinotto.
Marxismo como ciência social. Curitiba: Editora UFPR, 2011.

A compilação dos textos que compõem esta coletânea está bem longe da busca do marxismo puro e duro ou do “verdadeiro Marx”.

Essa miragem filosofante, responsável por parir no século XX tantos marxismos quantos analistas disponíveis, implicou em uma glorificação desmedida do autor e praticamente só isso. As ideologias teóricas que surgiram daí, cujo efeito foi encerrar a discussão e não permiti-la, criaram uma série de campos de força que dividiram artificialmente as ciências sociais em “Sociologia burguesa”, de um lado, e Teoria Marxista, de outro. A primeira, supostamente derivada de uma epistemologia positivista e de uma metodologia empirista, foi condenada e banida por sua inexplicável ignorância da dialética materialista.

Não é só um pouco desconcertante quando uma descobre a outra. O prejuízo contabilizado por essa separação bizantina, que parece ter mais a ver com as vantagens simbólicas que cada partido teórico retira dessa luta ideológica, implicou no isolamento provinciano de ambas as partes – e ele foi muito mais prejudicial ao marxismo acadêmico.

Este livro parte dessa presunção. Deixando de lado a política revolucionária e os pouquíssimos escritos que se incumbiram de falar do mundo pós-capitalista e da estratégia dessa reengenharia social, os ensaios reunidos aqui pretendem tomar o pensamento de Marx como uma ciência social normal. Essa postura implica numa compreensão diferente dos textos canônicos, mais interessada nas suas operações analíticas do que na monumental parafernália teórica sobre a qual se apoiam. Além disso, assume, para todos os efeitos, que os postulados do marxismo devem ser entendidos como hipóteses, não como princípios; e hipóteses são por definição verificáveis, ou seja, passíveis de serem confirmadas – ou refutadas. Só assim os estudos marxistas conseguirão deixar de ser o que frequentemente tem sido: ilustração de teoria.

para ler a Apresentação,
clique aqui
para comprar o livro
acesse www.­editora.­ufpr.­br
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24 de dezembro de 2011

A sociologia política brasileira em análise

[Brazilian entertainer Carmen Miranda.
John Phillips, 1939
Life]

CODATO, Adriano. A sociologia política brasileira em análise: quatro visões sobre o funcionamento administrativo do estado novo. Rev. Sociol. Polit. [online]. 2011, vol.19, n.40, pp. 273-288.


Nos estudos de Sociologia Política brasileira, há quatro maneiras diferentes de considerar os departamentos administrativos dos estados, aparelhos criados pela ditadura de Vargas em 1939 como órgãos complementares ao sistema de interventorias federais. Na base dessas interpretações, há também quatro modos diferentes de considerar o próprio regime do Estado Novo (1937-1945). As concepções sobre os departamentos administrativos divergem tanto em função das convicções do observador diante da forma de funcionamento do sistema político autoritário, quanto do papel (político, econômico ou burocrático) dessas agências que o analista julga mais relevante destacar. Analiso neste ensaio as interpretações disponíveis sobre o assunto e enfatizo o que me parecem ser as principais dificuldades e limitações para explicar a relação entre as antigas elites políticas estaduais e as novas instituições políticas federais na década de 1940 no Brasil.

Palavras-chave : Estado Novo; Getúlio Vargas; ditadura; departamentos administrativos dos estados; Sociologia Política brasileira.


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