artigo recomendado


Sergio Simoni Junior, Rafael Moreira Dardaque, Lucas Malta Mingardi. A elite parlamentar brasileira de 1995 a 2010: até que ponto vai a popularização da classe política? Colombia Internacional, n. 87, p. 109-143, maio-ago. 2016 .
O objetivo deste artigo é debater a tese da popularização do perfil social dos parlamentares brasileiros buscando ressaltar que a literatura, ao ignorar a assimetria de poder institucional entre os legisladores, pode apresentar um viés no seu diagnóstico sobre as características da representação política no Brasil.
__________________________________________________________________________________

10 de novembro de 2014

a nova/velha direita brasileira

[Jânio Quadros.
Campanha presidencial.
Brasil, 1960.
fotógrafo não identificado] 

A DIREITA QUE NÃO TEM MAIS VERGONHA

Revista Fórum Semanal, n. 172
Eleições de 2014 consolidaram a figura do direitista que se assume como tal, mas posições extremadas buscam trazer à tona fantasmas de um passado sombrio e não contribuem para um debate democrático sadio.
Por Glauco Faria e Maíra Streit
Socialites e executivos engravatados caminham lado a lado em manifestações pedindo o impeachment da presidenta. Internautas exaltados vociferam insultos preconceituosos contra nordestinos nas redes sociais. Jovens que nunca viveram o período da repressão exigem do Exército um golpe militar, a exemplo do que ocorreu em 1964, quando teve início uma das páginas mais sangrentas da nossa história.
Não há mais dúvidas. Parte da direita perdeu a vergonha de defender seus ideais e agora luta para consolidar, no país, um projeto político dos mais reacionários. De acordo com dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a formação do Congresso Nacional eleita em 2014 é a mais conservadora dos últimos 50 anos. O aumento no número de militares, religiosos e ruralistas na Câmara e no Senado seria um reflexo desse novo cenário. Pautas como aborto, descriminalização das drogas e casamento homoafetivo, tão debatidas durante as eleições, dificilmente deverão ser abordadas de forma mais séria e contundente pelos parlamentares.
Na prática, o que pode ser considerado como “onda conservadora” é algo que vem sendo promovido há tempos. Em 2012, Fórum publicou uma matéria em sua edição impressa de outubro chamando a atenção para o fato de que existia àquela altura uma proliferação de medidas proibitivas. Estas eram usadas como arma político-eleitoral de setores conservadores, agradando uma parcela significativa da sociedade brasileira. As medidas eram fartas e variadas, envolvendo desde um projeto no Senado que pretendia tornar crime produzir e distribuir jogos de videogames ofensivos “aos costumes e às tradições dos povos, aos seus cultos, credos, religiões e símbolos”, passando pela censura às manifestações contra a CBF da parte de torcidas em estádios de futebol e chegando a casos inusitados como a proposta de um vereador de Vila Velha (ES) para proibir que noivas da cidade se casassem sem roupas íntimas por baixo do vestido.
O sociólogo Rudá Ricci destacava, na ocasião, que a ressonância de tal conservadorismo poderia estar associada à emergência de uma nova classe C. “Esse pessoal, que representa 53% da população brasileira, tem medo de voltar à pobreza, são consumidores vorazes e não gostam de nada que afete a ordem. São muito conservadores, fechados na família, porque a família sempre esteve com eles. Eles não confiam em nada do que é público e são extremamente pragmáticos”, apontava, ressaltando ainda a correlação entre um certo tipo de comportamento com as eleições de 2012. “Ou seja, uma foto, um dado dessa hipótese é justamente o discurso dos candidatos favoritos este ano nas eleições municipais. Quem falou de mazelas e mudanças não consegue ganhar a eleição. Quem fala em sucesso e defesa do direito do consumidor está sempre na frente, porque essa parcela da população quer o sucesso individual e familiar. São contra o aborto, contra a diferença”, avaliou.
No ano seguinte, o Brasil viveu as grandes manifestações de junho de 2013, apontadas por especialistas como o estopim para a organização de um grupo de insatisfeitos que são “contra tudo isso que está aí”, mas que nem sempre possuem o discernimento necessário para compreender o atual contexto político do país. Sem bandeiras definidas, mas pedindo mudanças de forma genérica, a contradição das mobilizações acabou por eleger representantes até mais conservadores do que os que existiam até então.
Durante a disputa presidencial, grupos de direita, antes restritos aos meios virtuais, passaram à condição de personagens por vezes centrais do processo eleitoral ao priorizarem o combate ao PT com base em um discurso que atribuía à legenda e ao governo Dilma rótulos da época da Guerra Fria como “comunistas” e alguns mais modernos mais igualmente inadequados, como “bolivarianos”. A verborragia discriminatória tomou proporções inimagináveis. A insatisfação virou rancor e o rancor, rapidamente, deu lugar ao ódio. Casos de constrangimento em função de preferência política e mesmo de violência verbal e até física tornaram-se comuns, tingindo a disputa presidencial com uma agressividade vista em poucas ocasiões.
O professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Breno Cypriano, afirma que os debates foram bem menos propositivos do que deveriam pois a oposição parecia pouco aberta ao diálogo e mais preocupada em desqualificar seus oponentes. “A postura de partidos de direita, e o PSDB liderou todo esse bloco, serve-nos como exemplo para se entender como a busca desenfreada e inconsequente por um sistema político e econômico liberal gera na sociedade a valorização do conflito e, por conseguinte, a busca pela eliminação do adversário”, ressaltou.
“O PSDB, como todo partido que concorre a votos eleitorais, não pode, numa disputa, se dar ao luxo de escolher eleitores, separá-los entre votos bons e votos maus. O que ocorreu é que, assim como em 2010 com Serra, o PSDB aceitou o papel de porta-voz da extrema-direita brasileira. Suas lideranças políticas ou intelectuais (Fernando Henrique, José Serra, José Arthur Giannotti) não foram aos jornais reprovar o discurso alucinado dessa direita alucinada contra o governo. Tratou-se, a meu ver, de cálculo eleitoral”, avalia Adriano Codato, doutor em Ciência Política pela Unicamp e professor de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Se o PSDB irá aceitar esse papel de agora em diante, a ver. De toda forma, parece ter havido uma diluição da marca partidária, que de ‘social-democrata’ corre o risco de ser identificado, pelas esquerdas, como ‘social-fascista’.”
De fato, na disputa de 2014 os tucanos abraçaram, até mesmo oficialmente, parte de um discurso de direita radical para atrair o apoio e o voto de um segmento do eleitorado que rejeita o petismo o associando ao “comunismo” ou a um “projeto internacional” de esquerdas. Em mais de um debate no segundo turno e mesmo no primeiro, Aécio Neves atribuiu a países vizinhos, que seriam “produtores de drogas” a culpa pelos altos índices de criminalidade no Brasil, alusão à política externa dos governos recentes que reforçaram a relação Sul-Sul. Também trouxe em mais de uma ocasião os investimentos do BNDES no Porto de Mariel, em Cuba, tema recorrente em páginas de extrema direita nas redes sociais desde muito antes das eleições. Sua campanha chegou a inventar um personagem, o “Godzilla cubano”, para ilustrar em um vídeo a proximidade do governo Dilma com o país caribenho.
Para Cypriano, a reação exagerada da direita deve-se ao receio de ter seus privilégios ameaçados, já que a elite era vista historicamente como prioridade pelo governo e, com as políticas sociais implementadas pela gestão petista nos últimos doze anos, isso mudou. “Manter privilégios é manter-se diferente ou melhor/superior ao outro. O medo dessa direita é que o outro, que antes não tinha acesso a quase nenhum recurso, possa ser igual, possa usufruir os mesmos benefícios que eles sempre tiveram”, explica.
Na opinião do especialista, o desenvolvimento desigual no Brasil – percebido principalmente pela concentração de renda nas regiões Sul e Sudeste – e o endosso dos grandes veículos de comunicação a um discurso mais conservador, apoiados pelo capital privado, seriam alguns dos fatores que explicariam o fortalecimento de movimentos da direita no país.
Nesse aspecto, tomando-se uma declaração dada pela presidenta da Associação Nacional de Jornais (ANJ) em 2010, Judith Brito, de que cabia à imprensa fazer “de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”, alguns dos líderes opositores atuais são colunistas e publicações que deram guarida a essa direita com suas considerações ofensivas e basicamente anti-petistas. Um deles se notabilizou por chamar o ex-presidente Lula de “apedeuta”; outro escreveu um livro cujo título se referia ao petista como “minha anta”, e um terceiro fez um concurso virtual de ofensas a Lula. Com espaço na mídia, inclusive televisiva, estes e outros jornalistas se tornaram uma triste referência para uma direita raivosa que foi às ruas. Também não é à toa que na última manifestação a favor de Aécio Neves em São Paulo, no sábado anterior à eleição, o material que mais se via entre os manifestantes era a capa da revista Veja, cuja distribuição como propaganda havia sido proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Os partidos de esquerda vitimizam os marginais”
Embora tenhamos oficialmente 32 partidos políticos no Brasil e grande parte deles apresente as palavras “social” e “democrata” no nome, o que se vê é que há, hoje, muitos discursos moralizantes e retrógrados travestidos de progressistas. E, como se não bastassem, ainda aparecem outros com o objetivo de conturbar, de forma declarada, a já difícil luta pela igualdade de direitos, atacando minorias e atribuindo as suas reivindicações uma busca por “privilégios”. Além disso, é possível identificar outras questões em comum entre os gritos difusos daqueles que estão nas redes e também nas ruas.
“Há coisas novas e coisas velhas. Mas mais velhas que novas. O que une as várias gerações de direita no Brasil são, a meu ver, quatro temas: o racismo de classe, o fanatismo golpista, o anticomunismo primitivo e a bandeira da (anti)corrupção. Tudo isso estava na UDN, no PDS, no PFL. E agora é amplificado pelos seus novos porta-vozes: os colunistas, apresentadores, humoristas, “intelectuais” que frequentam os jornalões e são replicados incessantemente nas redes sociais”, sustenta Adriano Codato. “Uma nova agenda pode surgir daí que é o combate mais histérico aos novos direitos individuais, aos direitos de minorias, a questões comportamentais. Essa direita é infinita.”
Um dos políticos que têm orgulho de se dizer de direita e que representa parte das bandeiras defendidas por manifestantes direitistas é o Capitão Augusto Rosa (PR/SP). Com cerca de 47 mil votos, ele só foi eleito deputado federal por São Paulo no último pleito graças a Tiririca (PR), que, com seus 1,3 milhão de votos, conseguiu puxar outros dois deputados por causa do coeficiente eleitoral. Antes de passar para o Partido da República, Rosa tentou colher o máximo possível de assinaturas para a fundação do Partido Militar Brasileiro (PMB). Mesmo não tendo conseguido o número exigido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele segue firme na defesa dessa que considera uma legenda que pode oferecer, de fato, um contraponto para a política vigente.
Entre as propostas defendidas pela nova sigla, estão a redução da maioridade penal, a liberação do porte de armas para os chamados “cidadãos de bem” e a instituição da prisão perpétua. Os integrantes do partido ainda afirmam serem contrários ao casamento homoafetivo, à adoção de crianças por casais do mesmo sexo e se opõem à Comissão Nacional da Verdade, instituída para investigar os crimes da ditadura. Pelo contrário, eles exigem o pagamento de indenização para militares “perseguidos” durante o período.
Na área de segurança pública, a promessa é de intensificar a força policial. “Os partidos de esquerda vitimizam os marginais, pois acham que eles são vítimas de uma sociedade capitalista, e farão de tudo para tentar recuperá-los, custe o que custar, nem que para isso arrisquem a vida e a tranquilidade de milhares de brasileiros”, acredita.
As consequências da tal “polarização” presente na configuração política do país há alguns anos e que se intensificou agora não é vista necessariamente como um problema. Para Breno Cypriano, porém, o Partido dos Trabalhadores deve estar preparado para continuar enfrentando uma forte reação de parte da sociedade. “Os projetos políticos do PT terão que enfrentar, uma vez mais, uma onda conservadora que, assentada em privilégios, visa à permanência da política como ela está: coronelista, patriarcal, machista, homofóbica e racista. Muitos que estão no poder querem permanecer nesse poder”, destaca. Segundo ele, a reforma política é um dos temas que deve resvalar nos interesses desse segmento, gerando uma resistência que pode complicar o andamento das mudanças propostas pela presidenta Dilma Rousseff.
“Desde que continuem ‘falando’ em golpe, conclamando os militares, pedindo o impedimento da presidente Dilma, balançando a bandeira do bolivarianismo etc. e que isso não encontre nenhuma repercussão no mundo político-institucional, ok. Teremos o nosso ‘Tea Party’, secundado pelas grandes empresas de comunicação, suas revistas, seus comentaristas e seus especialistas. Se isso passar à ação, aí não será positivo, de modo algum”, argumenta Adriano Codato. Resta saber o quanto a oposição encampará ou não o discurso extremado.

http://revistaforum.com.br/digital/172/direita-sai-armario/

.

Nenhum comentário: