artigo recomendado


Lopez, Felix, & Almeida, Acir. (2017). Legisladores, captadores e assistencialistas: a representação política no nível local. Revista de Sociologia e Política, 25(62), 157-181.
O artigo analisa a representação política local, focando as percepções e práticas cotidianas dos vereadores. Em particular, analisam-se suas escolhas entre estratégias de representação clientelistas e universalistas. Utilizam-se dados originais de entrevistas abertas semiestruturadas com amostra não representativa de 112 vereadores de 12 municípios de Minas Gerais. Por meio de análise qualitativa, classificam-se os vereadores em três tipos, de acordo com sua principal estratégia de representação, a saber: “legislador”, que se dedica mais às funções formais da vereança; “captador”, que prioriza o atendimento de pedidos coletivos dos eleitores; “assistencialista”, que prioriza o atendimento de pedidos particulares. Os resultados sugerem que essas estratégias são qualitativamente distintas e que a probabilidade de ocorrência do tipo assistencialista é maior em municípios pequenos, crescente no acirramento da competição política e decrescente na volatilidade eleitoral.
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16 de março de 2014

a vila das torres

[Marcelo Andrade,
Gazeta do Povo] 

Matéria publicada pela Gazeta do Povo (Curitiba) em 16 mar. 2014 sobre a violência dos pobres.

A reportagem pode ser lida neste link.

A entrevista completa de Fábia Berlatto, que foi enviada por e-mail ao jornalista, vai abaixo.

Perguntas do jornalista:
- Como a senhora vê a Vila das Torres? Perigosa, contraditória, acuada?
- Como entender uma comunidade tão violenta localizada tão perto do centro da capital do estado?
- Há uma origem para tamanha violência nessa localidade relativamente pequena?
- A geografia da Vila Torres, com um rio que se transformou em esgoto, contribui para que a sociedade a veja de forma estigmatizada?

Respostas:

Eu vejo a Vila das Torres como uma expressão da desigualdade econômica e social do Brasil. O perfil do seu território, das suas casas, das suas ruas, da quantidade e qualidade dos serviços públicos e equipamentos urbanos que existem – ou não existem – na Vila das Torres representa  a distribuição de direitos, de poder, de oportunidades no País.  A percepção que temos dos seus moradores, de que são perigosos, está em conformidade com a forma como vemos os pobres no Brasil. Não há nenhuma contradição nisso, esse é o padrão que criamos. Não há contradição também no fato de existir uma Vila das Torres em Curitiba, que é uma metrópole brasileira como outra qualquer.

A Vila das Torres gera tanta polêmica porque está numa região central. Se estivesse na periferia, longe dos nossos olhos, sequer teríamos conhecimento do seu nome. A não ser quando lembrados pelos meios de comunicação em casos de crimes violentos. Não existe nada mais eficiente em colar um estigma num lugar e em seus moradores do que isso.  Os conflitos gerados pelo tráfico de drogas ilícitas afeta profundamente a vida cotidiana dos seus moradores.

A Vila das Torres não está acuada. Existem aí associações de moradores, grupos religiosos, indivíduos bastante ativos em procurar os canais de comunicação com o poder público e com a sociedade em geral. A questão são as barreiras burocráticas, políticas e sociais que encontram para suas demandas. Eles lutaram muito para conseguir o que eles têm. O quebra-molas e o semáforo na Guabirotuba. Foram persistentes na tentativa de minimizar os impactos locais da construção do binário Chile-Guabirotuba. Depois, mais uma luta para que instalassem semáforo e passagem elevada para os pedestres no novo trecho da rua Chile. Agora precisam recuperar o acesso ao Jardim das Américas, interrompido pelas obras. Os estudantes precisam de segurança para chegar ao outro lado, onde está o colégio que frequentam. Há muita relutância porque as pessoas querem cruzar o mais rápido possível por ali. Tudo isso é instrumentalizado por interesses políticos. É uma luta constante para demonstrar que são trabalhadores, que também são ‘pessoas de bem’.

É obvio que o tráfico de drogas ilícitas não é exclusividade de bairros pobres como a Vila das Torres. A questão é que nestes espaços ocorre a sua territorialização. Ou seja, ali os grupos de traficantes passaram a ter que controlar militarmente os seus territórios. Fora da favela, as estratégias e possibilidades de venda de drogas ilícitas permitem dispensar a violência. É importante frisar que muitos estudos apontam que sem a participação da visível corrupção policial o tráfico de drogas ilícitas, neste modelo, é inviável.

Sempre ressaltando que a vida na Vila das Torres não pode ser resumida à violência e ao tráfico, nem mesmo à pobreza, ou ao lugar onde o Rio Belém revela seu estado crítico. O Rio Belém tem um longo percurso até chegar ali e é evidente que não é só o esgoto da Vila que é despejado nesse rio.
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