artigo recomendado


Sergio Simoni Junior, Rafael Moreira Dardaque, Lucas Malta Mingardi. A elite parlamentar brasileira de 1995 a 2010: até que ponto vai a popularização da classe política? Colombia Internacional, n. 87, p. 109-143, maio-ago. 2016 .
O objetivo deste artigo é debater a tese da popularização do perfil social dos parlamentares brasileiros buscando ressaltar que a literatura, ao ignorar a assimetria de poder institucional entre os legisladores, pode apresentar um viés no seu diagnóstico sobre as características da representação política no Brasil.
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27 de outubro de 2011

prefácio de joão feres jr. ao livro "marxismo como ciência social"

[Thousands of watches drive to provide 
Russian doctors & nurses with scarce 
timepieces during wartime.
US, 1943
J. R. Eyerman]




Quem é velho o suficiente para ter vivido durante a ditadura militar, sabe que muitos dos agentes sociais e políticos (corporações, órgãos de imprensa, forças políticas, instituições, etc.) que hoje se apresentam como genuínos democratas conviveram de maneira muito amigável com aquele arranjo de coisas, quando não foram seus ativos apoiadores. Essa constatação e a maneira não reflexiva com a qual nossa sociedade trata seu passado recente suscitam em minha mente uma preocupação grave: quem garante que em uma nova situação de crise política aguda, tais agentes, e outros novos que surgiram desde então, não possam vir a transgredir novamente os princípios da democracia política liberal? Não nos iludamos: se a oportunidade permitir é bem provável que o façam. Resta a pergunta, muito importante do ponto de vista da ciência social: nesse caso, qual a lógica que presidiria a ação de tais agentes, se a adesão aos princípios da democracia política liberal é no fundo contingente? Não seriam os interesses econômicos de classe, principalmente os de longo prazo, aqueles que garantem a preservação das relações assimétricas de apropriação de bens e oportunidades entre as classes uma hipótese muito provável e merecedora de nossa atenção? De uma coisa tenho certeza: a Ciência Social e, particularmente, a Ciência Política praticadas hoje em dia no Brasil não estão bem preparadas para enfrentar esse tipo de questão.

Quem teve contato com a produção acadêmica das Ciências Sociais no Brasil ainda no período do regime militar deve lembrar o quão diferente era ela em relação ao que hoje temos. Com exceção de alguns poucos departamentos, o marxismo, divido em várias correntes interpretativas, dominava. Tenho uma lembrança fotográfica de estar na sala principal do DCE da UNICAMP lendo a Folha de S. Paulo e me deparar com uma análise futurológica, dessas que nosso “grande” jornalismo de trincheira produz de maneira tão abundante quanto irresponsável, vaticinando o declínio do marxismo teórico como consequência do fim da União Soviética. Lembro-me que minha reação foi de desprezo e descrença: como um regime corrompido e autoritário como o socialismo real da União Soviética poderia com seu fim afetar uma doutrina tão prenhe de insights analíticos e normativos? Provavelmente o fato produziria uma renovação do marxismo, depurando-o dos vícios da experiência Soviética – pensava eu com pleno entusiasmo e ingenuidade juvenis. Na verdade, eu estava errado, pelo menos parcialmente. O fim da União Soviética lançou grande descrédito sobre a teoria marxista – e isso não foi, contudo, produto do curso “natural” das coisas, como sugeria o jornal, mas sim do trabalho dos agentes que militaram para tornar realidade o vaticínio. Por outro lado, e aqui reside meu acerto parcial, a perda de poder dos marxistas nas cenas intelectual e política abriu espaço para novas ideias de esquerda, mais democráticas e menos condicionadas a esquemas teóricos determinísticos.

Adriano Codato e Renato Perissinotto partem desse mesmo evento histórico para apresentar a principal tese do livro: a queda da teoria marxista teve pelo menos um efeito muito negativo, que foi o de expulsar da pauta da pesquisa em Ciências Sociais no Brasil um conjunto de questões que dizem respeito às classes sociais e sua expressão na política, essa entendida como modalidade de ação ou como estrutura estatal. Isto é, com o desaparecimento dessa perspectiva, em grande parte advogada pelos intelectuais marxistas, a Sociologia Política se empobreceu.

Mas Renato e Adriano não pretendem restabelecer antigas maneiras de pensar a Sociologia Política. O propósito do livro não é o de servir de base para o resgate de uma ortodoxia ou mesmo para a proposição de uma nova. Pelo contrário, os autores pretendem dar ao marxismo teórico um significado científico no sentido de mostrar como ele pode ser apropriado de maneira a gerar hipóteses que iluminem e inspirem o trabalho de análise empírica, o que na verdade eles já vêm fazendo em seus estudos substantivos há anos. Assim, o livro tem o objetivo autoimposto de combater o preconceito que é causa tanto do “silêncio da Ciência Social sobre o marxismo teórico” como da “ignorância olímpica desse mesmo marxismo teórico diante da Ciência Social dominante”. [continua ...]

João Feres Jr.
IESP - UFRJ
outubro 2011

Adriano Codato e Renato Perissinotto,
Marxismo como ciência social.
Curitiba: Ed. UFPR, 2011 (no prelo)
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Um comentário:

DJPatricio disse...

"Quem é velho o suficiente"... fiquei desconcertado com esse inicio de frase. Velho eu?