artigo recomendado


Sergio Simoni Junior, Rafael Moreira Dardaque, Lucas Malta Mingardi. A elite parlamentar brasileira de 1995 a 2010: até que ponto vai a popularização da classe política? Colombia Internacional, n. 87, p. 109-143, maio-ago. 2016 .
O objetivo deste artigo é debater a tese da popularização do perfil social dos parlamentares brasileiros buscando ressaltar que a literatura, ao ignorar a assimetria de poder institucional entre os legisladores, pode apresentar um viés no seu diagnóstico sobre as características da representação política no Brasil.
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11 de março de 2011

democracia e países árabes

[Saudi Arabia, 1961
James Burke. Life] 


Icarabe: Quais são os problemas do olhar ocidental sobre a política do Oriente Médio?
Paulo Hilu*: Existem vários erros. Um dos erros é achar que essa região nunca conheceu a democracia. Os países que emergem do colonialismo francês e inglês tinham um sistema democrático, ou pelo menos estruturadamente democrático. Então, Síria, Líbano, Jordânia e Iraque tinham regimes que apresentavam todas as aparências da democracia liberal. Eleições, multipartidarismo, liberdade de imprensa. Só que eram sistemas que, ou eram controlados por um grupo, no caso do Líbano os maronitas, no do Iraque, os sunitas, ou era uma pequena elite urbana ou rural que controlava o sistema, como era o caso do Egito e da Síria. Isso fazia com que a maioria da população ficasse de fora da ação política. Muito parecido com o que era a República Velha aqui no Brasil.

Icarabe: E continuava a ligação com as colônias?
PH: Esses regimes dependiam das antigas potências coloniais, aos quais estavam ligados por tratados, que colocavam as riquezas e as forças armadas sob tutela dessas potências. Então, obviamente, as transformações do século XX, como urbanização, desenvolvimento de uma classe operária, o deterioramento das condições no campo, onde os proprietários de latifúndio exploravam uma mão-de-obra proletarizada, levaram à queda desses regimes. Outro fator foi o fracasso militar diante da primeira guerra entre árabes e isralenses, que levou à criação do Estado de Israel. De certa maneira, deslegitimizou esses Estados, vistos então como meros fantoches coloniais. Isso levou à queda de todos eles nas mãos de líderes populistas, geralmente inspirados por visões nacionalistas, de caráter socialista, e o melhor exemplo é Nasser. Então, esses líderes vão subir um a um. Nasser no Egito em 1952, o Baath na Síria em 1963, o partido Baath no Iraque em 1968. Você já tem na época uma percepção que ligava a democracia a um goveno de elite e ao colonialismo europeu, e a sua substituição por esses regimes nacionalistas árabes traziam uma idéia de que eles estavam realmente incorporando as massas ao processo político, e que realmente estavam atendendo aos desígnios da nação. Então, vêm dessa época a pouca base social que as idéias liberais tinham no Oriente Médio.

Icarabe: E como se saíram esses novos regimes?
PH: Esses regimes também não conseguiram resolver a questão. Eles também construíram regimes que excluíam boa parte da população do sistema político. Sem dúvida, eles tinham bases sociais nobres, como camponeses e operários, mas também se apoiavam em um poderoso aparato repressivo de polícias secretas. Além disso, economicamente, eles não conseguiram trazer um bem-estar à população e politicamemnte não conseguiram enfrentar a questão do conflito com Israel de maneira satisfatória. A questão palestina continuou sendo o grande problema das relações internacionais do Oriente Médio. A partir da década de 80, você tem o descrédito desses regimes e uma movimentação nas sociedades árabes em dois sentidos. Em primeiro, a substituição de ideologias nacionalistas e socialistas seculares por versões politizadas do Islã e das identidades religiosas, já num contexto de declínio mundial do socialismo. Essas identidades religiosas atendiam a uma representação de autenticidade cultural, a idéia de que o Islã era nativo, era o que o Oriente Médio tinha de original em relação a ideologias políticas importadas da Europa, entre elas o socialismo. Ao mesmo tempo, você tinha entre a classe média uma demanda por democracia e liberalização do regime. O que acontece é que os regimes autoritários conseguem chantagear essa classe média por causa do medo que elas tinham de um regime islâmico. Elas sempre tiveram um estilo bastante capitalista e uma visão de mundo bastante secularizada. Ninguém estava interessado numa República Islâmica no modelo do que aconteceu no Irã, em 1979.

Icarabe: Como se posicionavam esses novos movimentos islâmicos na política da região?
PH: Eles eram uma forma de protesto contra a corrupção, o autoritarismo, a opressão. Mas o interessante é que muitos movimentos islâmicos incorporaram reivindicações democráticas. Muitos deles pediam a liberalização do sistema político, da democracia, porque sabiam que iam ganhar qualquer eleição. Eles pediam o fim da tortura, o respeito aos direitos humanos. Então você tem essa nebulosa islâmica que toma conta do imaginário político do Oriente Médio. Eles também mobilizaram toda uma rede de assitência social e religiosa para trazer benefícios políticos, coisa que os partidos seculares nunca conseguiram.

Icarabe: Como reagiram os Estados a essa movimentação do Islã político?
PH: Os Estados responderam com uma força maior ainda, o que levou a um processo de radicalização e de violência, que vai marcar todo o final da década de 80 e começo dos anos 90. Isso acontece em toda a região. Só que a partir da década de 90, você tem um outro fenômeno, que é o declínio do Islã político. Primeiro, a crescente radicalização e a transformação desses movimentos em grupos violentos afasta o apoio social que eles tinham. Outra coisa, é uma crescente difusão desses ideais religiosos como elementos culturais. Passa-se a ter a islamização da sociedade, e o que eram valores religiosos passam a ser simplesmente valores culturais, ou seja, valores que são constituídos pelas interações sociais difusas, horizontais, sem intermediação de uma entidade, texto ou local religioso.

Icarabe: E hoje? Como permanece essa disputa?
PH: Nos anos 90, os modelos revolucionários como o Irã, entram em uma fase pós-revolucionária, com uma grave crise econômica e social. Isso faz com que haja uma substituição da militância ideológica pela meritocracia individual no Irã. Isso faz com que os movimentos do Islã político também mudem de foco. O foco deixa de ser o Estado, de difícil conquista pela luta armada. A construção da sociedade islâmica deixa de ser pensada a partir do Estado islâmico e passa ser vista a partir da reforma do indivíduo. A idéia é que se você reformar todos os indivíduos em bons muçulmanos, você terá uma sociedade islâmica independente do Estado. Nos anos 90, emerge esse modelo de Islã social, de religião pública no Oriente Médio. Esse é o modelo que predomina até hoje. Não quer dizer que o Islã político tenha desaparecido. Ele perde a hegemonia.

Icarabe: Quem comandaria essa reforma?
PH: Voltam à cena os líderes religiosos tradicionais, que estavam marginalizados pela militância do Islã político. Geralmente, os agentes do Islã político não saem do ambiente religioso. São, na verdade, pessoas que têm uma formação secular e interpretam a religião. Então há uma individualização das práticas e crenças religiosas, uma maior autonomia em relação ao establishment religioso ou a grupos religiosos. Você tem uma difusão e fragmentação desse processo. O que não o torna mais fraco. Pelo contrário, ele se torna cada vez mais presente. É só olhar qualquer cidade do Oriente Médio, os sinais exteriores de religiosidade são muito mais presentes do que 30 anos atrás, como o uso do véu, por exemplo.

Icarabe: Cite um exemplo de grupo que seguiu esse caminho?
PH: O Hezbollah é um exemplo perfeito disso. Nesses movimentos, muitos militantes se institucionalizaram e entraram no jogo político. A entrada no jogo político é o início de um rápido processo de desradicalização. O Hezbollah, quando foi criado no Líbano em 1982, em relação íntima com serviços secretos iranianos, pregava uma revolução islâmica no Líbano, como a Revolução Iraniana, para criar um Estado islâmico, virando depois uma revolução mundial. Mas o Hezbollah ganha consistência na sua luta contra o exército israelense no Líbano e passa, desde seu início até 2000, com a saída de Israel sob a pressão militar do próprio Hezbollah, de um grupo islâmico para um grupo nacionaista libanês. Embora o discurso fosse religioso, as táticas do Hezbollah e o objetivo deles eram objetivos nacionais libaneses, ou seja, passa a ser expulsar os israelenses do Líbano.

Icarabe: Então o Hezbollah é um ponto importante na cena política do Líbano, por exemplo?
PH: Você tem uma crescente conformação da prática política e da apresentação à cena política libanesa por parte do Hezbollah como partido nacional libanês. É com esse capital que eles entram no jogo político em 1992, participando das eleições municipais. Desde então eles participam de todas as eleições, e sempre marcados por um extremo prgamatismo, fazendo alianças com grupos cristãos e com grupos sunitas. Muitas vezes o Ocidente não entende que a liberalização dos regimes do Oriente Médio nos anos 90 foi causado pela pressão dos grupos islâmicos, ou seja, insistem em usar categorias esquemáticas de tudo que é Islã político é ruim, é terrorista.

Icarabe: E com ocorre a substituição de França e Inglaterra pelos Estados Unidos como potência imperialista na região?
PH: Desde 1956, os Estados Unidos substituem a potência intervencionista no Oriente Médio. Isso é marcado por duas coisas. A aliança com Arábia Saudita, por causa do petróleo, e a aliança estratégica com Israel. Os Estados Unidos eram contra os Estados nacionalistas que surgiram após a queda dos regimes ligados a ex-metrópoles. Quando surgem esses grupos islâmicos, os Estados Unidos não vêem necessariamente com maus olhos, porque eles são contra o nacionalimo árabe. Muitos desses grupos islâmicos eram financiados pela Arábia Saudita. Os Estados Unidos também estavam financiando a guerrilha jihadista no Afeganistão. Em um primeiro momento, eles não olham para isso como um problema. Eles vão ver isso como problema no final dos anos 80, quando os regimes aliados dos Estados Unidos, como o Egito de Mubarak, e o regime da Jordânia, se vêem acuados pela oposição islâmica.

* Coordenador de pesquisa de pós-graduação em Antropologia e do Núcleo de Estudos sobre o Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense, de Niterói. Na instituição, trabalha com três linhas de pesquisa: estudo do Islã na Síria, estudo do Islã no Brasil e estudo da identidade árabe no Rio de Janeiro. É graduado em História, além de Medicina, tem mestrado em Antropologia da Ciência e Ensino e doutorado em Antropologia, com enfoque em Islã e Sufismo. Nascido em 1968, é de origem árabe, além de portuguesa, e morou na Síria entre os anos de 1999 e 2001. Tem três livros publicados.

fonte: http://icarabe.provisorio.ws/entrevistas/e-erro-achar-que-essa-regiao-nunca-conheceu-a-democracia
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