artigo recomendado


Batista, Mariana. (2016). O Poder no Executivo: explicações no presidencialismo, parlamentarismo e presidencialismo de coalizão. Revista de Sociologia e Política, 24(57), 127-155.
Como a literatura vem analisando o Poder Executivo nos diferentes regimes políticos? A partir da diferença institucional básica entre presidencialismo e parlamentarismo pode-se identificar dois conjuntos de contribuições principais para o entendimento do funcionamento do Executivo em democracias: a literatura sobre a presidência americana e as discussões sobre os governos de coalizão no parlamentarismo europeu. O que os dois conjuntos de teorias têm em comum é a preocupação com a política intra-executivo. Esta literatura é analisada, identificando as principais questões, instituições, comportamentos e variáveis enfatizadas.
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17 de março de 2011

a economia como ciência social

[Brasil, 1986
Sebastião Salgado.
Pirelli/MASP] 

programa (provisório) do curso
Introdução às Ciências Sociais





HC 311 - INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS
2011 (1º. semestre)
Professor Adriano Codato

Ementa
Transmitir uma ampla visão do processo social, destacando os diversos aspectos que permeiam o conjunto das relações sociais e a dinâmica da sociedade humana, de modo a incentivar no educando o interesse pelo estudo das interações entre a Economia e as demais ciências sociais. (a ementa não fui eu quem escreveu)

Metodologia
Aulas expositivas; exercícios práticos de leitura; debates em sala de aula.

Avaliação
Duas provas escritas em sala de aula, sem consulta.

Calendário das Sessões

16 março: apresentação do curso

UNIDADE i. A ciência da política
18 março: Política e Ciência Política: visões normativas e concepções descritivas (aula 1)
Referências obrigatórias:
BOBBIO, Norberto. Política. In: N. Bobbio, N. Matteucci e G. Pasquino. Dicionário de Política. 2ª ed. Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 1986.
BOBBIO, Norberto. Ciência Política. In: N. Bobbio, N. Matteucci e G. Pasquino. Dicionário de Política. 2ª ed. Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 1986.

23 março: O desenvolvimento da Ciência Política: a) o marxismo (aula 2)
Referência obrigatória: CODATO, Adriano. O Dezoito Brumário, política e pós-modernismo. Lua Nova (Impresso), São Paulo - SP, v. 64, p. 85-115, 2005.

25 março: O desenvolvimento da Ciência Política: b) o neo-institucionalismo (aula 3)
Referência obrigatória: HALL, Peter A.; TAYLOR, Rosemary C. R. As três versões do neo-institucionalismo. Lua Nova, São Paulo: n. 58, 2003. 

30 março: não haverá aula

1 abril: O desenvolvimento da Ciência Política: c) o culturalismo (aula 4)
Referência obrigatória: PUTNAM, Robert D. Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna. Rio de Janeiro: Ed. da FGV, 1996, cap. 6: Capital social e desempenho institucional.
uma resenha do livro aqui

6 abril: O desenvolvimento da Ciência Política: d) o comportamentalismo (aula 5)
Referência obrigatória: DAHL, Robert A. Poliarquia: participação e oposição. São Paulo: Edusp: 1997, capítulo 4: A Ordem Socioeconômica: Concentração ou Dispersão?

UNIDADE II. O FENÔMENO POLÍTICO
8 abril: Poder e Legitimidade: o que é poder? Poder e dominação (aula 6)
Referências obrigatórias:
ARON, Raymond. Macht, Power, Puissance, prosa democrática ou poesia demoníaca? In: _____. Estudos sociológicos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.
BACHRACH, Peter e BARATZ, Morton S. Poder e decisão. In: F. H. Cardoso e C. E. Martins (orgs.). Política e sociedade. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1983, p. 43-52. 

13 abril: A dominação legítima e seus tipos (aula 7)
Referência obrigatória: WEBER, Max. Os três tipos puros de dominação legítima. In: COHN, Gabriel (org.). Max Weber: sociologia. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1986, Col. Grandes Cientistas Sociais, p. 128-141.

15 abril: A Ação Política: grupos de pressão e grupos de interesse (aula 8)
Referência obrigatória: DAHL, Robert A. Poliarquia: participação e oposição. São Paulo: Edusp: 1997, p. 25-50.

27 abril: As Organizações Políticas: partidos, sindicatos e associações (aula 9)
Referência obrigatória: MICHELS, Robert. Sociologia dos partidos políticos. Brasília: Editora da UnB, 1982, Parte I - A (cap. I), Parte I-B (cap. II), Parte I-C; Parte VI.

29 abril: Ideologias e Utopias: ideologias teóricas e ideologias práticas (aula 10)
Referências obrigatórias:
EAGLETON, Terry. Ideologia. Uma introdução. São Paulo: Editora Boitempo, 1997, p. 11-40.
CONVERSE, Philip E. Os sistemas de crenças. In: F. H. Cardoso e C. E. Martins (orgs.). Política e sociedade. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1983, vol. 2, p. 144-151.

4 maio: I avaliação semestral (aula 11)

6 maio: ideologias teóricas e ideologias práticas: a) liberalismo (aula 12)
Referência obrigatória: BOBBIO, Norberto. Liberalismo e democracia. 6ª. ed. São Paulo: Brasiliense, 2000.
 
11 maio: ideologias teóricas e ideologias práticas: b) socialismo (aula 13)
Referência obrigatória: WEBER, Max. Conferência sobre o socialismo. In: Fridman, Luiz Carlos (org.). Émile Durkheim, Max Weber: o socialismo. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará, 1993, p. 85-128.

13 maio: ideologias teóricas e ideologias práticas: c) fascismo (aula 14)
Referência obrigatória: ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo e totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

18 maio: o pensamento político: a) o pensamento político conservador (I) (aula 15)
Referência obrigatória: HIRSCHMAN, Albert. A retórica da intransigência: perversidade, futilidade, ameaça. São Paulo: Cia. das Letras, 1985.

20 maio: o pensamento político: b) o pensamento político conservador (II) (aula 16)
Referência obrigatória: HIRSCHMAN, Albert. A retórica da intransigência: perversidade, futilidade, ameaça. São Paulo: Cia. das Letras, 1985.
 
25 maio: o pensamento político: c) o pensamento político progressista (I) (aula 17)
Referências obrigatórias:  
OFFE, Claus. 1984. A democracia partidária competitiva e o ‘welfare state’ keynesiano: fatores de estabilidade e desorganização. In: _____. Problemas estruturais do Estado capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, p. 356-386.
ESPING-ANDERSEN, Gosta. As três economias políticas do welfare state. Lua Nova,  São Paulo,  n. 24, Sept.  1991, pp. 85-116.

27 maio: o pensamento político: d) o pensamento político progressista (II: as utopias políticas) (aula 18) (monitor)
Referências obrigatórias:
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
SCHUMPETER, Joseph. A significação do Manifesto Comunista na Sociologia e na Economia. In: H. J. Laski, O Manifesto Comunista de Marx e Engels. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

UNIDADE III. O Estudo das Instituições Políticas: o Estado
1 junho: O conceito de Estado: o que é o Estado? (aula 19)
Referência obrigatória: BOURDIEU, Pierre. Da casa do rei à razão de Estado: um modelo da gênese do campo burocrático. In: Wacquant, Loïc (org.). O mistério do ministério. Pierre Bourdieu e a política democrática. Rio de Janeiro: Revan, 2005.

3 junho: Características do Estado: A tradição weberiana: autoridade e legitimidade (aula 20)
Referências obrigatórias:
WEBER, Max. A política como vocação. In: _____. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, s/d.
BOBBIO, Norberto. A teoria do Estado e do poder em Max Weber. In: _____. Ensaios escolhidos. História do pensamento político. São Paulo: C. H. Cardim Editora, s/d, p. 157-184.

8 junho: Funções do Estado a tradição marxista (aula 22)
Referências obrigatórias:
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 8ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982, cap. IX: Barbárie e civilização, p. 177-201.
MILIBAND, Ralph. Marx e o Estado. In: BOTTOMORE, Tom (org.). Karl Marx. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, p. 127-147.

10 junho: Origem e desaparecimento do Estado (aula 23)
Referência obrigatória: ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 8ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982, cap. IX: Barbárie e civilização, p. 177-201. 

15 junho: O Estado na prática: a reforma do Estado no Brasil nos anos 1990 (aula 21) (monitor)
Referência obrigatória: BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Do Estado patrimonial ao gerencial. In: Pinheiro, Wilheim e Sachs, I. (orgs.). Brasil: um século de transformações. São Paulo: Cia. das Letras, 2001, p. 222-259.

17 junho: não haverá aula (aula 24)

29 junho: II avaliação semestral (aula 25)

6 julho: exames finais
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11 de março de 2011

democracia e países árabes

[Saudi Arabia, 1961
James Burke. Life] 


Icarabe: Quais são os problemas do olhar ocidental sobre a política do Oriente Médio?
Paulo Hilu*: Existem vários erros. Um dos erros é achar que essa região nunca conheceu a democracia. Os países que emergem do colonialismo francês e inglês tinham um sistema democrático, ou pelo menos estruturadamente democrático. Então, Síria, Líbano, Jordânia e Iraque tinham regimes que apresentavam todas as aparências da democracia liberal. Eleições, multipartidarismo, liberdade de imprensa. Só que eram sistemas que, ou eram controlados por um grupo, no caso do Líbano os maronitas, no do Iraque, os sunitas, ou era uma pequena elite urbana ou rural que controlava o sistema, como era o caso do Egito e da Síria. Isso fazia com que a maioria da população ficasse de fora da ação política. Muito parecido com o que era a República Velha aqui no Brasil.

Icarabe: E continuava a ligação com as colônias?
PH: Esses regimes dependiam das antigas potências coloniais, aos quais estavam ligados por tratados, que colocavam as riquezas e as forças armadas sob tutela dessas potências. Então, obviamente, as transformações do século XX, como urbanização, desenvolvimento de uma classe operária, o deterioramento das condições no campo, onde os proprietários de latifúndio exploravam uma mão-de-obra proletarizada, levaram à queda desses regimes. Outro fator foi o fracasso militar diante da primeira guerra entre árabes e isralenses, que levou à criação do Estado de Israel. De certa maneira, deslegitimizou esses Estados, vistos então como meros fantoches coloniais. Isso levou à queda de todos eles nas mãos de líderes populistas, geralmente inspirados por visões nacionalistas, de caráter socialista, e o melhor exemplo é Nasser. Então, esses líderes vão subir um a um. Nasser no Egito em 1952, o Baath na Síria em 1963, o partido Baath no Iraque em 1968. Você já tem na época uma percepção que ligava a democracia a um goveno de elite e ao colonialismo europeu, e a sua substituição por esses regimes nacionalistas árabes traziam uma idéia de que eles estavam realmente incorporando as massas ao processo político, e que realmente estavam atendendo aos desígnios da nação. Então, vêm dessa época a pouca base social que as idéias liberais tinham no Oriente Médio.

Icarabe: E como se saíram esses novos regimes?
PH: Esses regimes também não conseguiram resolver a questão. Eles também construíram regimes que excluíam boa parte da população do sistema político. Sem dúvida, eles tinham bases sociais nobres, como camponeses e operários, mas também se apoiavam em um poderoso aparato repressivo de polícias secretas. Além disso, economicamente, eles não conseguiram trazer um bem-estar à população e politicamemnte não conseguiram enfrentar a questão do conflito com Israel de maneira satisfatória. A questão palestina continuou sendo o grande problema das relações internacionais do Oriente Médio. A partir da década de 80, você tem o descrédito desses regimes e uma movimentação nas sociedades árabes em dois sentidos. Em primeiro, a substituição de ideologias nacionalistas e socialistas seculares por versões politizadas do Islã e das identidades religiosas, já num contexto de declínio mundial do socialismo. Essas identidades religiosas atendiam a uma representação de autenticidade cultural, a idéia de que o Islã era nativo, era o que o Oriente Médio tinha de original em relação a ideologias políticas importadas da Europa, entre elas o socialismo. Ao mesmo tempo, você tinha entre a classe média uma demanda por democracia e liberalização do regime. O que acontece é que os regimes autoritários conseguem chantagear essa classe média por causa do medo que elas tinham de um regime islâmico. Elas sempre tiveram um estilo bastante capitalista e uma visão de mundo bastante secularizada. Ninguém estava interessado numa República Islâmica no modelo do que aconteceu no Irã, em 1979.

Icarabe: Como se posicionavam esses novos movimentos islâmicos na política da região?
PH: Eles eram uma forma de protesto contra a corrupção, o autoritarismo, a opressão. Mas o interessante é que muitos movimentos islâmicos incorporaram reivindicações democráticas. Muitos deles pediam a liberalização do sistema político, da democracia, porque sabiam que iam ganhar qualquer eleição. Eles pediam o fim da tortura, o respeito aos direitos humanos. Então você tem essa nebulosa islâmica que toma conta do imaginário político do Oriente Médio. Eles também mobilizaram toda uma rede de assitência social e religiosa para trazer benefícios políticos, coisa que os partidos seculares nunca conseguiram.

Icarabe: Como reagiram os Estados a essa movimentação do Islã político?
PH: Os Estados responderam com uma força maior ainda, o que levou a um processo de radicalização e de violência, que vai marcar todo o final da década de 80 e começo dos anos 90. Isso acontece em toda a região. Só que a partir da década de 90, você tem um outro fenômeno, que é o declínio do Islã político. Primeiro, a crescente radicalização e a transformação desses movimentos em grupos violentos afasta o apoio social que eles tinham. Outra coisa, é uma crescente difusão desses ideais religiosos como elementos culturais. Passa-se a ter a islamização da sociedade, e o que eram valores religiosos passam a ser simplesmente valores culturais, ou seja, valores que são constituídos pelas interações sociais difusas, horizontais, sem intermediação de uma entidade, texto ou local religioso.

Icarabe: E hoje? Como permanece essa disputa?
PH: Nos anos 90, os modelos revolucionários como o Irã, entram em uma fase pós-revolucionária, com uma grave crise econômica e social. Isso faz com que haja uma substituição da militância ideológica pela meritocracia individual no Irã. Isso faz com que os movimentos do Islã político também mudem de foco. O foco deixa de ser o Estado, de difícil conquista pela luta armada. A construção da sociedade islâmica deixa de ser pensada a partir do Estado islâmico e passa ser vista a partir da reforma do indivíduo. A idéia é que se você reformar todos os indivíduos em bons muçulmanos, você terá uma sociedade islâmica independente do Estado. Nos anos 90, emerge esse modelo de Islã social, de religião pública no Oriente Médio. Esse é o modelo que predomina até hoje. Não quer dizer que o Islã político tenha desaparecido. Ele perde a hegemonia.

Icarabe: Quem comandaria essa reforma?
PH: Voltam à cena os líderes religiosos tradicionais, que estavam marginalizados pela militância do Islã político. Geralmente, os agentes do Islã político não saem do ambiente religioso. São, na verdade, pessoas que têm uma formação secular e interpretam a religião. Então há uma individualização das práticas e crenças religiosas, uma maior autonomia em relação ao establishment religioso ou a grupos religiosos. Você tem uma difusão e fragmentação desse processo. O que não o torna mais fraco. Pelo contrário, ele se torna cada vez mais presente. É só olhar qualquer cidade do Oriente Médio, os sinais exteriores de religiosidade são muito mais presentes do que 30 anos atrás, como o uso do véu, por exemplo.

Icarabe: Cite um exemplo de grupo que seguiu esse caminho?
PH: O Hezbollah é um exemplo perfeito disso. Nesses movimentos, muitos militantes se institucionalizaram e entraram no jogo político. A entrada no jogo político é o início de um rápido processo de desradicalização. O Hezbollah, quando foi criado no Líbano em 1982, em relação íntima com serviços secretos iranianos, pregava uma revolução islâmica no Líbano, como a Revolução Iraniana, para criar um Estado islâmico, virando depois uma revolução mundial. Mas o Hezbollah ganha consistência na sua luta contra o exército israelense no Líbano e passa, desde seu início até 2000, com a saída de Israel sob a pressão militar do próprio Hezbollah, de um grupo islâmico para um grupo nacionaista libanês. Embora o discurso fosse religioso, as táticas do Hezbollah e o objetivo deles eram objetivos nacionais libaneses, ou seja, passa a ser expulsar os israelenses do Líbano.

Icarabe: Então o Hezbollah é um ponto importante na cena política do Líbano, por exemplo?
PH: Você tem uma crescente conformação da prática política e da apresentação à cena política libanesa por parte do Hezbollah como partido nacional libanês. É com esse capital que eles entram no jogo político em 1992, participando das eleições municipais. Desde então eles participam de todas as eleições, e sempre marcados por um extremo prgamatismo, fazendo alianças com grupos cristãos e com grupos sunitas. Muitas vezes o Ocidente não entende que a liberalização dos regimes do Oriente Médio nos anos 90 foi causado pela pressão dos grupos islâmicos, ou seja, insistem em usar categorias esquemáticas de tudo que é Islã político é ruim, é terrorista.

Icarabe: E com ocorre a substituição de França e Inglaterra pelos Estados Unidos como potência imperialista na região?
PH: Desde 1956, os Estados Unidos substituem a potência intervencionista no Oriente Médio. Isso é marcado por duas coisas. A aliança com Arábia Saudita, por causa do petróleo, e a aliança estratégica com Israel. Os Estados Unidos eram contra os Estados nacionalistas que surgiram após a queda dos regimes ligados a ex-metrópoles. Quando surgem esses grupos islâmicos, os Estados Unidos não vêem necessariamente com maus olhos, porque eles são contra o nacionalimo árabe. Muitos desses grupos islâmicos eram financiados pela Arábia Saudita. Os Estados Unidos também estavam financiando a guerrilha jihadista no Afeganistão. Em um primeiro momento, eles não olham para isso como um problema. Eles vão ver isso como problema no final dos anos 80, quando os regimes aliados dos Estados Unidos, como o Egito de Mubarak, e o regime da Jordânia, se vêem acuados pela oposição islâmica.

* Coordenador de pesquisa de pós-graduação em Antropologia e do Núcleo de Estudos sobre o Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense, de Niterói. Na instituição, trabalha com três linhas de pesquisa: estudo do Islã na Síria, estudo do Islã no Brasil e estudo da identidade árabe no Rio de Janeiro. É graduado em História, além de Medicina, tem mestrado em Antropologia da Ciência e Ensino e doutorado em Antropologia, com enfoque em Islã e Sufismo. Nascido em 1968, é de origem árabe, além de portuguesa, e morou na Síria entre os anos de 1999 e 2001. Tem três livros publicados.

fonte: http://icarabe.provisorio.ws/entrevistas/e-erro-achar-que-essa-regiao-nunca-conheceu-a-democracia
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10 de março de 2011

teorias sociais e interesse de classe

[Homem com Peixe, c. 1945
Marcel Gautherot.  
Pirelli/MASP] 



para ler antes ou depois de assistir ao filme Inside Job (documentário, EUA, 120 min., diretor: Charles Ferguson)


Folha de S. Paulo,
quarta-feira, 09 de março de 2011
   
Teorias sociais

ANTONIO DELFIM NETTO

Todo analista de problemas sociais comprometido com uma "teoria" e, portanto, engajado, impõe-se uma sorte de miopia. Seja o caso: a) de um "neoclássico" que crê no equilíbrio geral do sistema econômico para dar um "ar científico" às suas recomendações; b) de um "marxista" que crê no materialismo histórico para dar um "ar de ciência" de como ver o mundo e sugerir sua mudança, ou c) de um "keynesiano" que se concentra na demanda global, na irremediável incerteza sobre o futuro, em conceitos psicológicos duvidosos e tem a teoria geral como o limite intransponível à compreensão da economia.

Em ciências humanas, as "teorias" são produto do tempo e do espaço: dos interesses políticos, econômicos e sociais (no fundo, de como a sociedade se organiza), da sua história e das circunstâncias impostas por seu território.

Elas e, portanto, suas recomendações variam no tempo e no espaço conforme interesses da classe que detém o poder e pode produzir a "política econômica" que lhe convém.

Há, consequentemente, sérias dúvidas sobre a famosa alegação de Keynes de que "as concepções de economistas e filósofos políticos, corretas ou erradas, são mais poderosas do que geralmente se suspeita... e que homens práticos, que se creem infensos a qualquer influência intelectual são, frequentemente, escravos do pensamento de algum economista que já morreu".

Sua própria teoria foi produto do seu tempo e do seu espaço.

Como lembrou o professor Von Mering (1944), o brilhante mas discutível Pareto ("Mind and Society") mostrou que os interesses (que chamamos de A), a política econômica (B) e a teoria (C) podem ter outra ordem: os interesses da classe que tem o poder político (A) constroem a política econômica que os satisfaz (B) e a teoria (C) racionaliza tal processo.

O exemplo de Pareto é muito interessante: poderosos interesses individuais (A) de quem estava assumindo o poder político (a burguesia emergente na Inglaterra) determinaram a política do "free trade" (B). A teoria (C) só veio depois, mas não teve importância na sua efetivação. Só racionalizou-a e aumentou a resistência à volta da proteção.

Ele fez uma previsão: se e quando (A) mudasse (aumentasse o poder político dos trabalhadores), a política protecionista poderia voltar e a teoria (C) iria se ajustar, como aliás, foi o caso de Keynes.

Substitua (A) por interesses da classe financeira que assumiu lentamente o controle político nos Estados Unidos depois de 1980; (B) pela desregulação das atividades produzida por esse controle e verá como nasceu a teoria (C) dos mercados perfeitos para dar-lhe racionalidade...

ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.
contatodelfimnetto@terra.com.br


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9 de março de 2011

fernando pessoa, pierre bourdieu e a noção de habitus

[Date taken: 1901
Photographer: Nina Leen
Life] 

um amigo comentou: "acho mesmo que Bourdieu poderia escrever um livro sobre essa passagem de Fernando Pessoa, começando assim: 'tudo o que eu tenho a dizer sobre o conceito de habitus está condensado na passagem abaixo'...". Bingo.

Fernando Pessoa, Nota solta atribuída ao Barão de Teive. In: Obra poética. Volume único. Nova Aguillar, p. 57-58.

“O que particularmente me indignava contra mim, nesses momentos de dúvida dolorosa, em que eu sabia muito antes que a solução seria nenhuma, era a intromissão do fator social no jogo desequilibrado de minhas decisões. Nunca pude dominar o influxo da hereditariedade e da educação infantil. Pude sempre repugnar os conceitos estéreis de fidalguia e de posição social; nunca os pude esquecer. São em mim como uma cobardia, que detesto, contra a qual me revolto, mas que me prende com laços estranhos à inteligência e à vontade. Tive um dia a ocasião de casar, porventura de ser feliz, com uma rapariga muito simples, mas entre mim e ela ergueram-se-me na indecisão da alma catorze gerações de barões, a visão da vila sorridente do meu casamento, o sarcasmo dos amigos nunca íntimos, um vasto desconforto feito de mesquinhezas, mas de tantas mesquinhezas que me pesava como a comissão de um crime. E assim eu, o homem de inteligência e desprendimento, perdi a felicidade por causa dos vizinhos que desprezo.

“O modo como vestiria, as maneiras que teria, como receberia em minha casa, onde porventura eu não tivesse que receber alguém, quantas deselegâncias de frase ou de atitude a sua ternura me não pudesse fazer esquecer nem a sua dedicação velar - tudo isso me erguia como um espectro de coisas sérias, como se fosse um argumento, nas vigílias em que me debatia para o desejo de a ter na vasta rede de impossibilidades que sempre me entaramelou.

“Lembro-me ainda, com uma precisão que intercala o perfume vago do ar da primavera, da tarde em que, meditando todas estas coisas, decidi abdicar do amor como de um problema insolúvel. Era em maio - num maio de verão suave, florido pelas pequenas extensões da quinta em várias cores esbatidas pela queda lenta da tarde começada. Eu passeava remorsos de mim entre os meus poucos arvoredos. Havia jantado cedo, e seguia, sozinho como um símbolo, sob as sombras inúteis e o sussurro lento das ramagens vagas. Tomou-me de repente um desejo de abdicação intensa, de claustro firme e último, uma repugnância de ter tido tantos desejos, tantas esperanças, com tanta facilidade externa de os realizar, e tanta impossibilidade íntima de o poder querer. Data dessa hora suave e triste o princípio do meu suicídio”.
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