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14 de outubro de 2009

Sociologia, de Gilberto Freyre

[Carnaval, 1988, Olinda, PE.
Carlos Humberto TDC.

Pirelli / MASP]







Apresentação do livro
Sociologia, de Gilberto Freyre
(Editora É Realizações)

por Simone Meucci (UFPR)

Sociologia: uma introdução aos seus princípios, cuja primeira edição é de 1945, é uma obra única no conjunto da produção intelectual de Gilberto Freyre. Trata-se de um compêndio elaborado por um autor que, com frequência, se autodefinia como pouco vocacionado para atividades didáticas e acadêmicas.

Em Sociologia, Freyre esforça-se por apresentar, num texto didaticamente orientado, a natureza e o lugar da sociologia no quadro geral das ciências e suas ramificações temáticas. O livro consiste numa espécie de organograma a partir do qual o autor inscreve, além das atribuições da sociologia, as inter-relações, os limites e as limitações de seus campos de investigação. Trata-se, portanto, de uma obra importantíssima para conhecer a ossatura do pensamento sociológico de Gilberto Freyre.

Esta nova edição de Sociologia chega às nossas mãos num momento em que ocorre um balanço acerca do legado de Freyre para as ciências sociais no Brasil. Há, com efeito, o resgate do papel de Freyre no processo de sistematização da sociologia e o reconhecimento de sua contribuição para a compreensão da dinâmica de dominação social na sociedade brasileira.[1]

A leitura de Sociologia pode, com efeito, ajudar os estudiosos de sua obra a mapear algumas de suas influências teóricas; compreender, no seu pensamento, as relações entre as “variáveis” raça, cultura e geografia; identificar os fundamentos teóricos da sua interpretação.

Esses aspectos se tornam mais visíveis nas páginas de Sociologia porque a orientação didática do livro obrigou o autor a explicitar categorias, conceitos, posições e pressupostos que não se encontram assim revelados em suas principais obras, conhecidamente ensaísticas.

Sociologia é, como não poderia deixar de ser, produto de uma longa artesania das ideias sociológicas de seu autor. Remotamente, essa artesania foi iniciada no período compreendido entre os anos de 1918 e 1923. Nessa época, Freyre realizou seus estudos de Ciências Jurídicas e Sociais nas Universidades de Baylor, Texas (graduação) e Columbia, Nova York (mestrado).[2]

Esse período de estudos nos Estados Unidos, especialmente na Universidade de Columbia (onde se dedicou às disciplinas de História, Antropologia e Sociologia), tornou-o o único brasileiro de sua geração com acesso aos conhecimentos avançados em ciências sociais desenvolvidos naquele ambiente onde ocorriam profundas transformações urbanas, demográficas e industriais.

Segundo o testemunho do próprio Freyre, o livro Sociologia tem, mais imediatamente, origem relacionada às suas experiências docentes no ensino da Sociologia, especialmente na Universidade do Distrito Federal, instituição onde lecionou no período compreendido entre os anos de 1935 e 1937. [3]

É possível que o trabalho docente no início da carreira intelectual de Freyre, além de investi-lo da condição de portador especializado do conhecimento sociológico entre nós, tenha mobilizado esforços mais sistemáticos para organização de ideias sociológicas que foram dispersamente acessadas no período de estudos nos Estados Unidos.

A base para a publicação do livro foi um precioso conjunto de laudas que resultaram da transcrição de suas aulas na Universidade.[4]

E ainda que Sociologia seja uma versão mais “amadurecida” desses manuscritos, seu conteúdo não deixa de ser um testemunho importante acerca das condições de institucionalização e difusão do conhecimento sociológico naquela instituição.

Freyre procura demarcar com destaque que Sociologia é, de fato, resultado de sua única experiência docente mais ou menos regular numa Universidade no Brasil.Isso fica evidente nas dedicatórias ao livro. Na primeira edição, o autor oferece a obra aos estudantes de Sociologia e Antropologia da Universidade, e a Heloísa Alberto Torres, sua colega na instituição. Na segunda edição, presta homenagem à memória de Roquette-Pinto, que foi também professor da universidade, responsável pelo laboratório de rádio da instituição.

Embora Sociologia seja uma obra única no conjunto da produção intelectual de Gilberto Freyre, esse tipo de esforço pela sistematização didática do conhecimento sociológico não foi isolado, nem mesmo inédito. Somou-se a uma mobilização notável pela formação de um acervo significativo de periódicos, dicionários e manuais de sociologia.

A rigor, esforços para formação desse acervo foram inaugurados por Pontes de Miranda em 1926, com a publicação do livro Introdução à Sociologia.[5]

Não obstante, apenas nos anos 30 do último século esse fenômeno de constituição de um conjunto de manuais sociológicos adquiriu contornos notáveis. Vivia-se, na indústria editorial brasileira, uma espécie de boom de livros didáticos de sociologia.

Compõem esse conjunto de obras os livros: Iniciação à Sociologia (1931) de Alceu Amoroso Lima, Sociologia experimental (1935) de Delgado de Carvalho, e Princípios de Sociologia (1935) de Fernando de Azevedo.[6]

Os livros publicados nesse período são espécies de sínteses enciclopédicas da história do pensamento sociológico. Alguns deles, concebidos à imagem e semelhança de compêndios estrangeiros. Eram, sobretudo, voltados aos alunos das Escolas Normais (que formavam professores) e dos Cursos Complementares (dedicados ao preparo dos alunos para o ingresso nas faculdades).

Diante da enorme repercussão dos livros didáticos de sociologia para a indústria editorial brasileira, após o início das aulas de Gilberto Freyre na Universidade do Distrito Federal, os editores já aguardavam a publicação de seu compêndio sociológico. Prova disso é uma carta enviada a Freyre em 1936, na qual o educador paulista Fernando de Azevedo [7] pediu-lhe que reservasse a publicação do livro resultante de suas aulas na Universidade para a série “Iniciação Científica”da Biblioteca Pedagógica Brasileira, coleção de livros da Companhia Editora Nacional (que, na época, era dirigida por Azevedo) de São Paulo.[8]

Parecia, portanto, ser grande a expectativa em relação à publicação do manual sociológico de um dos mais promissores e jovens cientistas sociais brasileiros, que recentemente havia surpreendido o meio intelectual com a publicação do polêmico Casa grande & senzala.[9]

Freyre, como sabemos, publicou o manual didático apenas nove anos depois do pedido de Fernando de Azevedo. Quais teriam sido as razões que explicam a longa espera dos editores e leitores pelo livro novo de sociologia?

Ao observar a produção bibliográfica de Freyre nesse período, constata-se que não houve um só ano sem que ele tivesse publicado uma obra. Observemos a cronologia:

1936: Sobrados e mucambos
1937: Nordeste
1938: Conferências na Europa
1939: Açúcar
1940: Um engenheiro francês no Brasil
1941: Região e tradição
1942: Ingleses no Brasil
1943: Problemas brasileiros de Antropologia
1944: Perfil de Euclides da Cunha e outros perfis.

Notemos que o autor priorizou a elaboração de obras analíticas e interpretativas em detrimento da formulação de um compêndio didático. A exceção é problemas brasileiros de Antropologia, no qual Freyre dedicou-se à publicação dos manuscritos de suas aulas de Antropologia na Universidade do Distrito Federal (ainda assim, apenas em 1943, cerca de oito anos após a realização do curso na Universidade).[10]

É possível que essa aparente “opção” pelas obras interpretativas esteja relacionada ao processo de formação e amadurecimento do campo das ciências sociais e, também, dos primeiros portadores do conhecimento sociológico entre nós.

Não se deve ignorar que a elaboração de um compêndio científico original requer um esforço de conversão da “prática” interpretativa num “sistema conceitual” passível de ser transmitido a especialistas e futuros especialistas no ramo de conhecimento em questão. Trata-se de uma conversão nada fácil que exige a formação de agentes capazes de realizar essa síntese, de um público leitor especializado e, também, de certo padrão discursivo. E isso só ocorreu de fato, a partir dos anos 1940 no Brasil.

Sociologia aparece, portanto, após notável experiência do autor como analista da realidade brasileira. Freyre escreveu antes sobre receitas, alcovas e regiões do Brasil; elaborou biografias de estrangeiros e brasileiros dedicados à interpretação da realidade social brasileira: parece ter optado por desvendar um pouco do Brasil antes de sistematizar o conhecimento sociológico.

Nesse sentido, o livro Sociologia de Freyre se distingue da primeira “safra” dos livros didáticos da matéria sociológica, redigidos por autores com pou ca experiência na análise social. Sociologia faz parte de novo conjunto de compêndios surgido no Brasil nos anos 1940, do qual Teoria e pesquisa em Sociologia (também publicado em 1945) de Donald Pierson é também um exemplar paradigmático. [11]

De certa maneira, esses dois livros – de Freyre e Pierson –, mais do que mera reconstituição histórica e escolástica das etapas do pensamento sociológico, procuraram realizar síntese original distinta das dezenas de livros didáticos de sociologia que até então ocupavam as estantes das livrarias brasileiras.

Muitos saudaram o aparecimento de Sociologia exatamente pela originalidade e sua capacidade de despertar interesse pela disciplina nova. Aos olhos dos leitores, Sociologia parecia romper com o padrão discursivo da literatura didática na matéria sociológica. Críticos destacavam o fato de que Freyre expôs o conteúdo de maneira saborosa e instigante. Roger Bastide afirmou que a grande qualidade do livro é que seu autor foi capaz de despertar e interessar o leitor.[12]

Anísio Teixeira, igualmente, num comentário pessoal ao autor, destacou a narrativa de Sociologia: “é o primeiro grande livro didático que leio. [...] Com tais livros, Gilberto, se poderia talvez dispensar a escola. Porque o saber precisa, para ser comunicado, de ser tornar assim pessoal, humano, quente, imaginativo”.[13]

O livro interessante é também monumental: a primeira edição de Sociologia tem cerca de 800 páginas divididas em dois volumes. Tantas páginas procuram revelar ao leitor a posição do autor em relação às perspectivas sociológicas atuantes no meio intelectual brasileiro. Freyre se contrapõe ao marxismo, à sociologia cristã, ao evolucionismo mais vulgar.

Nesse sentido, podemos dizer que o livro de Freyre atendia a uma demanda muito distinta daquela que mobilizou os esforços dos autores de compêndios sociológicos que surgiram no período compreendido entre o final dos anos 1920 e a década de 1930. É síntese original, caracterizada pelo empenho do autor em distinguir com cuidado a sua posição no ambiente intelectual e diferenciar a sociologia das outras áreas de conhecimento.

Simone Meucci, mestre e doutora em Sociologia pela Unicamp, é professora do Departamento de Ciências Sociais da UFPR.

Notas:

[1] Souza, J. A atualidade de Gilberto Freyre. In: Kosminski, E.; Peixoto, F.; Lepine, C. (Org.) Gilberto Freyre em quatro tempos. São Paulo: Editora Unesp; Bauru: Edusc, 2003. p. 65-82.

[2] Para compreender o período de estudos de graduação e pós-graduação de Freyre nos Estados Unidos e Europa, ver: Pallares-Burke, M. L. Gilberto Freyre: um vitoriano nos trópicos. São Paulo: Editora Unesp, 2005.

[3] A Universidade do Distrito Federal foi fundada em 1935, a partir de um projeto pedagógico inovador, elaborado pelo então diretor de instrução do Distrito Federal, o educador Anísio Teixeira. Teve, não obstante, uma vida breve: em 1939, durante o Regime do Estado Novo, foi arbitrariamente fechada. Seus alunos e parte do corpo docente foram incorporados à recém-fundada Universidade do Brasil. A história dessa instituição é emblemática do embate entre os educadores e os setores católicos no Brasil nesses período. Sobre a Universidade do Distrito Federal, ver: Barbosa, R. N. de C. O projeto da UDF e a formação dos intelectuais. Rio de Janeiro, 1996. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Vicenzi, L. J. B. de. A fundação da Universidade do Distrito Federal e seu significado para a educação no Brasil. In: Fórum Educacional. Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, jul./set. 1986.

[4] Os manuscritos de Freyre relativos às suas aulas de sociologia na Universidade do Distrito Federal são mantidos no acervo do Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre. Ver análise desse material em: Meucci, S. Gilberto Freyre e a sistematização da sociologia no Brasil. Campinas, 2006. Tese (Doutorado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas.

[5] Pontes de Miranda, F. Introdução à sociologia. São Paulo: Pimenta de Melo, 1926.

[6] Amoroso Lima, A. Preparação à sociologia. Rio de Janeiro: Centro D. Vital, 1931. Azevedo, F. Princípios de Sociologia. São Paulo: Nacional, 1935. Delgado de Carvalho, C. M. Sociologia experimental. Rio de Janeiro: Sauer, 1934.

[7] Carta enviada por Fernando de Azevedo a Gilberto Freyre em 9 maio 1936. Acervo do Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre. Recife/PE.

[8] Freyre havia, na época, acabado de publicar Sobrados e mucambos pela Editora Nacional por intermédio de Fernando de Azevedo.

[9] Freyre, G. Casa grande & senzala. São Paulo: Global, 2002. (1ª edição de 1933).

[10] Freyre, G. Problemas brasileiros de antropologia. Rio de Janeiro: Casa do Estudante, 1943.

[11] Pierson, D. Teoria e pesquisa em sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 1945.

[12] Roger Bastide, Diários Associados, 5 dez. 1945. Recorte do Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre – Recife/PE.

[13] Carta de Anísio Teixeira a Gilberto Freyre, datada de 2 de fevereiro de 1946. Acervo do Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre – Recife/PE.
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